por Luís Mouga Lopes
Ao invés do PS e do PSD/Chega, que têm uma visão míope assistencialista de apoio sonso aos ‘pobrezinhos’, os partidos de esquerda defendem que deve haver uma visão clara sobre a estrutura da sociedade e sobre as estruturas de poder; que se deve sonhar com um modelo social que dignifique o trabalho (seja do público ou do privado) e que a distribuição da riqueza permita que os cidadãos tenham – eles próprios – poder de decisão, sobretudo sobre como devem gastar o seu dinheiro, os seus rendimentos após pagarem os impostos devidos. A chamada liberdade financeira que tanto se apregoa…!
Obviamente que os lacaios do capitalismo defendem o sistema financeiro tal como está, baseado no peso da dívida (privada e pública) e nos custos elevadíssimos imputados às famílias e às empresas, nomeadamente às micro e às pequenas e médias empresas (mais de 95% da realidade portuguesa). Apostar nos custos altos (banca, renda, energia, combustível, transporte, etc.), nos baixos salários e na falta de concertação social foi (é) um dos maiores erros impostos pelos sucessivos governos até então. Resultado: um País aculturado e endividado, baseado em compadrios, em que uma parte da população é muito pobre ou pobre e a outra parte passa muitas dificuldades (poupa nada) ou dificuldades (poupa pouco). Obviamente que ainda há outra parte, que enriquece à custa das outras partes todas, que, mesmo super endividada, vive à grande e à francesa…
Claro que os lacaios do capitalismo adoram esta pequena porção da população, sonhando ser elite: ricos ou muito ricos. Daí, todo o engodo e parte da faturação das Santas Casas da Misericórdia, nomeadamente da Santa Casa de Lisboa (SCML) que, para além das doações do Estado, das heranças e doações dos crentes, do valioso património imobiliário, etc., gere a exploração dos jogos sociais (euromilhões, lotaria popular, totobola, raspadinhas, etc.) com receita de centenas de milhões de euros por ano, fruto das apostas feitas pelos muitos que acreditam na sorte grande! Apesar desta realidade, há que acarretar com as regras impostas (o sistema não poupa ninguém) continuando a acreditar e a lutar por um País e por uma Europa onde quem trabalha e paga impostos quanto basta merece bem-estar e paz social.
Há que acreditar numa União Europeia em que a indústria e a produção prevaleçam sobre o capital financeiro, em que as independências dos Estados europeus se baseiem em termos energéticos, alimentares e industriais, suportadas por um sistema financeiro público que apoie e controle; que não afunda os cidadãos em dívidas e não esmague o sistema privado das pequenas e médias empresas.
Por fim, lembrar que apesar do Boletim Económico do Banco de Portugal (março de 2025) informar que a economia portuguesa deverá crescer 2,3% em 2025 (1,9% em 2024), abrandando para 2,1% em 2026 e 1,7% em 2027, que o crescimento económico em 2025–26 beneficiará do alívio das condições financeiras e que tem subjacente uma aceleração da procura externa e uma execução dos fundos europeus mais concentrada, já cheira a troika. Porquê? Porque os lacaios do capitalismo estão por todo o lado: no sistema público, na função pública, nas autarquias e no governo, adorando a lei da oferta e da procura; da especulação. Porquê? Porque, por exemplo, segundo a FEANTSA, há mais de 700 mil casas vazias em Portugal – grande parte pertença do Estado e de fundos de investimento – que não são arrendadas ou vendidas a pessoas, a famílias a preços acessíveis, que equilibrem a diferença entre o quanto o cliente pode/está disposto a pagar, consoante a realidade nacional (salários), os custos de produção e a margens de lucro que os “patos bravos” desejam obter. Porque, não sendo capitalistas, os lacaios do capitalismo adoram perpetuar e alimentar o sistema na procura constante por ascensão e poder, de abraçar práticas que, na sua essência, são ainda mais implacáveis do que o próprio capitalismo. São aqueles funcionários públicos e políticos com títulos e sem escrúpulos que, corrompidos pelas promessas e dinheiro, priorizam interesses privados em detrimento do bem-estar público e da justiça social.


