INTERESSES PETROLÍFEROS COMANDAM ATAQUE À SOBERANIA DA VENEZUELA

Ficou claro que, sob a capa do combate ao narcotráfico (que o próprio Procurador do Tribunal de NY já deixou cair), o verdadeiro objetivo da Administração Trump é o de controlar os fluxos de hidrocarbonetos venezuelanos – as maiores reservas a nível mundial – e entregar a sua exploração, sob proteção militar, às petrolíferas norte-americanas. O ataque militar dos EUA à Venezuela, na noite de 3 de janeiro de 2026, com o sequestro de Nicolas Maduro e de Cilis Flores, tem de ser considerado um ato de terrorismo de Estado e de bárbara ingerência sobre um país soberano, incompatível com o direito internacional e a Carta das Nações Unidas.

Os objetivos geoestratégicos também são evidentes: bloquear o fornecimento de petróleo à China, o maior comprador dos hidrocarbonetos venezuelanos, e a Cuba, enquanto os EUA aumentam as suas reservas estratégicas e os lucros das megapetrolíferas. Estrangular o regime cubano, na senda da procura do domínio sobre toda a América Latina, em cumprimento da ressuscitada Doutrina Monroe do século XIX, e pressionar a política energética chinesa, é a estratégia da Administração Trump.

Num momento crucial de combate às alterações climáticas, em que a redução dos combustíveis de origem fóssil se torna essencial para que, in extremis, ainda possam ser cumpridas as metas do acordo de Paris sobre as emissões de CO2, os EUA desvinculam-se de qualquer acordo sobre o clima, decidem rasgar o direito internacional e a Carta das Nações Unidas e imporem uma política baseada nas energias fósseis e no seu controlo.

O ataque à Venezuela é apenas o início. As mais recentes notícias, confirmam que a Marinha dos EUA com o apoio militar do Reino Unido, num ato de verdadeira pirataria, assalta e sequestra petroleiros, já em águas internacionais do Atlântico Norte. Confirma-se o objetivo da Administração Trump em controlar os fluxos de petróleo, por cima do direito à livre circulação comercial no espaço marítimo internacional.

TRUMP PREPARA A GUERRA

O quadro de instabilidade mundial é grave e o principal mentor são os EUA e a sua política imperial. Os fatores de guerra acumulam-se. Esta situação é claramente o sintoma da crise norte-americana e a urgência que tem em procurar, pela via do seu poderio militar, manter a hegemonia do dólar nas trocas comerciais e nos movimentos financeiros, ameaçada pelo surgimento de outras potências, como a Rússia e a China, e a ampliação do espaço dos BRICS.

Independentemente das críticas que podem ser feitas ao regime e à situação social que se vive na Venezuela, a posição da União Europeia e do Governo português, incapazes de uma nota de condenação do vil ataque aquele país latinoamericano, é confrangedora e demonstrativa da subserviência que mantêm em relação à Administração Trump e aos EUA. A UE compromete-se a defender o direito internacional, mas é condescendente com quem está em aberta rota de colisão com essas mesmas regras internacionais.

Tudo isto apesar do conhecido apoio da Administração Trump às forças mais conservadoras e de extrema-direita nos países europeus, do já manifestado objetivo de uma intervenção militar em território europeu para ocupação da Gronelândia e de todas as imposições financeiras aos Estados-membros para financiar a NATO e o complexo industrial-militar dos EUA.

As lideranças neoliberais da UE e dos seus Estados-membros declaram-se inaptas para dar à Europa um papel autónomo e de defesa intransigente da paz, em prol dos seus povos, das suas culturas e da luta crucial para enfrentar as alterações climáticas, o grande e atual desafio maior da Humanidade.

Com esta política de dependência, a oligarquia europeia acolhe e submete-se aos objetivos da chamada estratégia de segurança nacional dos EUA, que perspetiva o mundo dividido, entre EUA, Rússia e China, em zonas de influência e quer o hemisfério ocidental, onde se inclui a Europa, como a sua esfera de domínio, acentuando uma política imperialista e intervencionista que recorrerá à força das armas, como chantagem ou como ação militar. Stephen Miller,conselheiro de Donald Trump, é perentório: este mundo “é governado pelo poder e pela capacidade de impor força.”

COMBATE AO IMPÉRIO DO FÓSSIL E SOLIDARIEDADE COM A LUTA DO POVO VENEZUELANO PELA INDEPENDÊNCIA E LIBERDADE

A Rede Ecossocialista portuguesa declara toda a solidariedade com o povo venezuelano, em particular com a sua comunidade de origem portuguesa, atacado pela voragem dos lucros da indústria fóssil e dos interesses geoestratégicos da Administração Trump que procura fazer sobreviver a sua hegemonia mundial pela chantagem da força militar.

A invasão da Venezuela é mais uma confirmação de que os regimes imperialistas e os interesses globais do capital preparam uma economia de guerra, atacam o Estado social, promovem o extrativismo, a submissão pela dívida, o militarismo e aprofundam as graves consequências das alterações climáticas provocadas pela utilização dos combustíveis de origem fóssil. A diversidade das lutas ambientais e ecológicas contra as alterações climáticas, têm um denominador comum: a luta por uma alternativa ao império do fóssil.

A Rede Ecossocialista portuguesa exige respeito absoluto pela autodeterminação e soberania dos povos. Quem tem de decidir e encontrar soluções para os conflitos sociais e políticos no seu próprio país é o povo venezuelano.  Denuncia a chantagem económica e a violência militar disfarçadas pelo discurso de “segurança nacional” e falsa democracia, repudia o ressurgimento da anquilosada doutrina Monroe, rebatizada de doutrina Donroe, que sacrifica a América Latina livre para manter a hegemonia dos Estados Unidos, e apela à mobilização, ao protesto, à resistência e à luta por uma nova economia livre da subjugação ao império do fóssil e uma sociedade ancorada na cooperação e na defesa dos bens comuns, na dignidade do trabalho, no respeito pela natureza e na paz.

A Direção da Rede Ecossocialista

07.janeiro.2026

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