Crónica do Brasil por RUI ABREU
Urge ativar uma agenda de esquerda na sociedade brasileira que dispute politicamente com o grande Capital a mente e alma da classe trabalhadora. As eleições de 2026 serão muito apertadas e o arcabouço fiscal pode derrotar Lula. Mas mesmo que ganhe, a herança política ancorada no neoliberalismo trará grandes desafios à esquerda e à classe trabalhadora no pós Lula, estando abertas as portas para o neofascismo governar de forma duradoura se não houver uma alternativa clara de esquerda a ebulir na sociedade brasileira.
Com a devida distância da realidade e a dez meses das eleições [4 de outubro (primeiro turno) e 25 de outubro (segundo turno)], as pesquisas vão apresentando um provável quadro de reeleição presidencial no Brasil. A imagem da presidência foi se recuperando na segunda metade do ano passado após alguns movimentos erráticos do neofascismo nacional e internacional. Pedidos de sansões, tarifas, tentativa do congresso blindar os crimes dos ricos e ataques à soberania foram fortalecendo o governo mesmo num quadro de precariedade económica para a esmagadora maioria das famílias brasileiras que a isenção de rendimentos até cinco mil reais pretende mitigar. Sucessivos nomes são colocados em disputa com Lula e todos apresentam tendências de voto inferiores, tendo o presidente mais ou menos vantagem em todos os cenários.
Neste último ano de mandato em que são logicamente esperadas as melhores medidas da governação e com o bolsonarismo atravessando uma crise de sucessão, será de esperar uma reeleição menos apertada que a eleição? Lula não tem adversário à altura?
Direita e extrema direita vêm ensaiando diversas candidaturas presidenciais permitindo vários governadores se perfilarem perante o grande capital como potenciais representantes de seus interesses. De fenômenos populistas a oportunistas eleitos na esteira de Bolsonaro passando por agrofascistas, vários nomes são apresentados e consultados à sociedade e a resposta popular parece não deixar margem para candidatos de direita sem a chancela do bolsonarismo. A potencial candidatura de Tarcísio de Freitas é o caso mais visível e vem oscilando entre a emancipação do carioca em relação à família Bolsonaro e a sua aceitação como autêntico representante do ideário neofascista. Com a pré candidatura de Flávio Bolsonaro o instinto de sobrevivência parece se impor e Tarcísio acalma sua ambição num quadro de reeleição fácil em São Paulo. 2030 é já ali.
Flávio Bolsonaro parece assumir a tarefa de reagrupar em seu torno a liderança da oposição, tarefa dificultada pelos sucessivos movimentos erráticos de seu irmão Eduardo que vivendo nos EUA conseguiu criar mais dano à extrema direita que o governo e a esquerda juntos. A imposição da vontade da família Bolsonaro nas candidaturas de Outubro de 2026 tem trazido muitas contradições na extrema direita envolvendo caciques locais e digitais. Os lugares a disputar para o senado em Santa Catarina e até a candidatura de Flávio tem despontado oposição interna, sendo Michelle Bolsonaro [mulher do ex-presidente] uma das figuras principais nessa disputa com os filhos de Bolsonaro. Mas o ex presidente parece já ter decidido e serão seus filhos a carregar a chama neofascista na contenda eleitoral e, respeitando a tradição, quem não estiver de acordo será alvo a abater.
Entretanto, a direita do “neoliberalismo tradicional” mantém sua aspiração de candidatura própria, afinal o bolsonarismo ainda não aprendeu a comer de garfo e faca e, mais importante, tinha um plano de assassinato de dois dos seus. Mas o neoliberalismo tem muitas dificuldades em ganhar eleições só com seu discurso. Embora tenha incutido valores na sociedade, há muito que as teses neoliberais têm dificuldade em penetrar numa classe trabalhadora esgotada de uma economia que funciona contra si. Não por acaso o neofascismo vai assumindo o papel de frente na defesa dos interesses dos bilionários, desviando para a agenda de costumes o foco político, escondendo de forma mais eficaz a contradição entre o Capital e o Trabalho.
No lavar das cestas será na proposta de domínio social que estes interesses se encontram, garantindo lucros cada vez maiores para o grande capital enquanto submete a população trabalhadora à agenda reacionária de domínio ideológico neofascista. Figura maior desse encontro é o ex Ministro da Fazenda Paulo Guedes que até hoje nem investigado foi pelos muitos crimes económicos cometidos sobre a população brasileira. É um encontro de vontades das elites, com judiciário, com tudo. Um encontro que para já parece ser Flávio Bolsonaro a estabelecer num provável segundo turno das eleições presidenciais, podendo o primeiro turno ser povoado de candidaturas de direita que mobilizará mais o seu campo político. A fragmentação de candidatos à direita potenciará mais a votação no segundo turno em torno do seu fio condutor: o anti petismo, o voto anti esquerda.
O governo parece querer jogar parado confiando nalgumas medidas com apoio popular deixadas para o último ano de mandato e nos dados económicos. Com taxa de ocupação alta e com o crescimento económico estável, Lula parece confiar na economia para a sua reeleição. Pena é que estes indicadores não se transportam para a vida das famílias trabalhadoras. Uma economia que é construída em cima de baixos salários e precariedade não traz satisfação popular. O social liberalismo já devia ter aprendido que as políticas neoliberais derrotam governos. Bolsonaro, Trump, Biden são alguns exemplos recentes da derrota da austeridade nas urnas. Biden chegou a ter taxas de desocupação históricas atingindo baixos níveis só vistos no pós segunda grande guerra. Mas ocupação não é emprego com perspetivas de carreira, salário valorizado e condições de trabalho dignas. E o povo já sabe disso.
Para arriscar mais a posição do governo, o colete de forças orçamental autoimposto vai criando muitas dificuldades de funcionamento do Estado. As limitações que o arcabouço fiscal trouxe vão ser determinantes para as eleições presidenciais. Sem investimento público de monta, acerto salarial significativo e diminuição das prestações sociais do Estado será difícil a classe trabalhadora se rever nesse projeto, podendo o arcabouço fiscal per si derrotar Lula. A austeridade é a criptonita eleitoral também do social liberalismo.
Também as medidas populares a aprovar neste ano eleitoral podem estar colocadas em causa pela oposição no congresso e pela antecipação do Capital. A tão esperada medida de alteração da escala de trabalho 6×1 pode estar a ser ultrapassada pelas decisões judiciais, em particular a Peugeotização que tramita no STF que promete driblar um conjunto de direitos da classe trabalhadora, inclusive a alteração da escala. O grupo de distribuição do interior paulista Savegnago já anunciou o início da escala 5×2 a partir de Fevereiro em todas as suas 65 unidades. O Capital antecipa-se contando para isso com seu mais ágil serviçal, o judiciário.
Com a importância estratégica que o Brasil tem será de esperar que o império mais uma vez tente influenciar as eleições de 2026. Perante a sede imperialista de Trump, o palácio do planalto parece apostar na entrega prévia de recursos ao império a fim de apaziguar sua gula territorial, um género de entreguismo preventivo. Tática desajustada para a fase de hiperimperialismo que a casa branca vem desenvolvendo, prevendo-se a interferência das Bigtech na tentativa de influenciar a disputa eleitoral, pendendo o jogo para o neofascismo. Cenários de golpe também não são desconsideráveis.
É este quadro de disputa intensa que requere uma candidatura à esquerda de Lula. Ao contrário do que o senso comum possa indicar, a fragmentação de candidaturas à esquerda potencializaria o voto de esquerda e diminuiria as chances de vitória do neofascismo. A esquerda está descrente do projeto de Lula que é mais ou menos a continuação da política surgida do golpe de 2016. A política de juros muito altos, a legislação trabalhista de Temer e a consolidação do Brasil como fazenda do mundo com seus custos sociais e ambientais tem trazido o governo Lula 3 a um descrédito na esquerda que pode levar a uma desmobilização eleitoral. Uma candidatura de esquerda dinamizaria esse campo político e, apesar do governo ser ruim, poderia ser uma alavancagem na votação antifascista. Mesmo sabendo que as políticas neoliberais são a pavimentação do descrédito do sistema e que só o neofascismo tem sabido capitalizar por ausência de projetos de esquerda, Lula não é neofascista e no segundo turno a responsabilidade política indica o voto nele.
Urge ativar uma agenda de esquerda na sociedade brasileira que dispute politicamente com o grande Capital a mente e alma da classe trabalhadora. As eleições de 2026 serão muito apertadas e o arcabouço fiscal pode derrotar Lula. Mas mesmo que ganhe, a herança política ancorada no neoliberalismo trará grandes desafios à esquerda e à classe trabalhadora no pós Lula, estando abertas as portas para o neofascismo governar de forma duradoura se não houver uma alternativa clara de esquerda a ebulir na sociedade brasileira.


