por Marta Leandro
Sem exagero, o Serafim estava sempre no terreno, a plantar, a denunciar, a exigir a defesa dos valores naturais, a apoiar comunidades locais – o arranque de eucaliptos em Veiga do Lila, Valpaços, uma revolta popular que ele ajudou a organizar contra forças da GNR montadas a cavalo, em março de 1989, e que meteu jornalistas da RTP a filmar de helicóptero a contenda, ficará nos anais da história do ambiente em Portugal.
O Serafim Riem deixou-nos na quarta-feira. O seu trabalho em prol da conservação da natureza confunde-se com a própria vida. Economista por imposição familiar, o Serafim gostava mesmo era de árvores, pássaros, animais. A natureza, a que ele dedicou toda uma existência, corria-lhe no sangue.
Sem exagero, o Serafim estava sempre no terreno, a plantar, a denunciar, a exigir a defesa dos valores naturais, a apoiar comunidades locais – o arranque de eucaliptos em Veiga do Lila, Valpaços, uma revolta popular que ele ajudou a organizar contra forças da GNR montadas a cavalo, em março de 1989, e que meteu jornalistas da RTP a filmar de helicóptero a contenda, ficará nos anais da história do ambiente em Portugal. Tal como ele.
Discreto, fundou a partir de Braga, com a mulher, a inseparável Emília Araújo, e cinco outros ambientalistas, a Quercus – ONG de que não quis ser o sócio número 1, convidando para tal um amigo da academia –, juntando assim inúmeros grupos ambientais dispersos pelo país.
Fundou ainda o FAPAS – Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens, associação que se distinguiu na conservação da natureza no norte do país e na edição de excelentes guias de natureza, e que literalmente lhe foi usurpada. E fundou finalmente a Íris, Associação Nacional de Conservação da Natureza, vocacionada também para a proteção do património, tendo convidado para vice-presidente, tal como ele, a arqueóloga Mila Simões de Abreu, que convenceu Portugal inteiro de que as gravuras não sabem mesmo nadar.
Já a meio da vida, sublimou com a criação de uma empresa de gestão de arvoredo em meio urbano – ah, as podas de árvores, eterna controvérsia entre ativistas e autarcas! – a vocação mal-amada.
Na serra de São Mamede, adotou burros – apenas porque sim –, construiu uma charca para as aves beberem e um muro altíssimo cheio de cavidades para as corujas nidificarem. E, porque a memória importa, guardou, até hoje expostas, as cegonhas desenhadas pelo filho. Tesouros que fazem parte da reserva selvagem que criou e quis deixar aos seus.
O Serafim, homem do Porto, detestava ter de comparecer a reuniões sobre assuntos de ambiente em Lisboa. As gravatas sufocavam-no! E não escondia também o desalento com os decisores políticos que ouvem, ouvem… mas pouco fazem. Também não era organizado com tarefas administrativas, que podia descurar porque o apelo do meio selvagem e da ação eram sempre mais fortes. Mesmo com responsabilidades como dirigente nacional, era normal não ter a chave da sede ou não saber a senha do email. Por isso foi presa fácil de oportunismos. E maltratado pelos pares – não esqueço a tristeza no olhar quando me disse que soube pelos jornais da sua expulsão de uma associação que fundara. Espero pois que a atual direção da Quercus tenha para com ele um gesto de reparação, mesmo que póstumo.
A sua alma conservou até ao fim a pureza e a simplicidade de “rapaz dos passarinhos”. Das vezes que privei com ele, recordo mostrar-me com mágoa o seu cemitério de cães. Dar-lhe a notícia da morte de um animal doméstico era uma tarefa delicada, que a família abordava com prudência, confidenciou então.
Ele foi ambientalista num tempo em que o país mal sabia o que era a defesa do ambiente. Em que o ativismo se fazia por carolice e amor à causa. Ensinou e inspirou gerações. Mas acima de tudo, o Serafim era um homem bom, solidário e de uma generosidade infinita. Dizer-lhe obrigado é pouco. Deixa-nos num dia triste, em que uma vez mais a força da natureza se impõe à desventura humana.
O idealismo do Serafim, a sua entrega à causa ambiental e a notável capacidade de mobilizar pessoas foram, até ao fim, a sua marca de água. Como ele diria quando se perspetivava uma nova luta: “Ide lá!”. O seu contributo permanecerá indelével.

[artigo publicado no “Público” – Azul, em 06fev2026]

