1. Uma vitória contra a extrema-direita
A vitória de António José Seguro na segunda volta das presidenciais resultou de uma ampla convergência: da esquerda, do centro-esquerda e de setores da direita que recusaram alinhar com a extrema-direita. Foi uma vitória contra o racismo, o autoritarismo e o projeto retrógrado de Ventura, e não a consagração de um futuro consenso político ou social. No contexto internacional de crescimento da extrema-direita, a vitória de Seguro assume um dado positivo.
Apesar da situação de catástrofe social que o país atravessa, a participação eleitoral manteve-se em níveis comparáveis a atos eleitorais anteriores. Ficou assim demonstrado que o adiamento das eleições seria um erro grave, apenas útil para alimentar a demagogia e o crescimento da extrema-direita.
O voto em Seguro foi um voto de combate, necessário para travar Ventura, mas insuficiente para responder às causas profundas do descontentamento social que alimenta a extrema-direita. Foi um voto crítico, consciente e exigente. Não foi — nem poderia ser — um cheque em branco.
2. O sistema recompõe-se — a crise aprofunda-se
Ventura tenta agora transformar a derrota eleitoral numa plataforma para relançar a sua captura da direita. A fragmentação do eleitorado conservador é clara: de um lado, quem teme ser absorvido pela extrema-direita; do outro, quem admite uma aliança com o Chega para garantir poder absoluto. Com 1,7 milhões de votos nestas eleições, Ventura continuará a disputar à AD a liderança da direita e a pressionar para que a atual direção do PSD não chegue ao fim da legislatura. A erosão que tem vindo a ser feita do Estado social, dos serviços públicos e das condições de vida, favorece-o.
O PS usa esta eleição para reforçar a sua estratégia de “moderação” e de entendimentos com o governo da AD, agora legitimada pela ideia de um Presidente da República garante da “estabilidade”. Uma espécie de oposição em banho-maria. Esta opção não é neutra: significa abdicar de qualquer alternativa real e abrir espaço político à extrema-direita, que cresce sempre que o centrão, seja qual for a modalidade, se confunde com o poder.
À esquerda, a situação é crítica. A fraca expressão eleitoral na primeira volta expôs a perda de influência social e política. O discurso do “voto útil”, agora reforçado pelo resultado de Seguro, tenderá a aprofundar esta crise. Persistir na lógica da “geringonça” seria um erro fatal. Só uma rutura clara com o neoliberalismo e com as políticas de gestão do sistema permitirá disputar o terreno à extrema-direita.
3. Sem ilusões: organizar, mobilizar, lutar
Este novo ciclo político é mais exigente, com um PR “conciliador”, um PS “moderado”, uma extrema-direita na ofensiva, um governo apostado em diminuir direitos e rendimentos do trabalho, e populações desesperadas com a destruição de casas e infraestruturas.
A vida já era difícil e com este Governo continua a piorar, pois de promessas ou declarações presidenciais ninguém vive. A recente Greve Geral mostrou o caminho. Foi a ação concreta que colocou o Governo e o seu Pacote Laboral sob pressão e criou alianças reais na sociedade: entre trabalhadores, movimentos sociais e todos os que veem direitos, salários e condições de vida brutalmente atacados.
A eleição presidencial foi apenas um momento. Abre-se agora um novo ciclo político, marcado pelas lutas contra o Pacote Laboral e por exigências claras: dar voz ao descontentamento profundo de quem trabalha e empobrece; de quem adoece e não tem resposta; de quem procura casa e encontra apenas rendas incomportáveis; de quem sofre as consequências e luta contra a crise climática, mas enfrenta um sistema capturado pelos interesses dos hidrocarbonetos e dos monopólios da energia; de quem anseia por paz e vê mais despesa militar e preparativos de guerra.
É urgente construir uma resposta política autónoma, popular e combativa. Uma alternativa que não dependa dos partidos do centro, que desafie a captura da revolta pela extrema-direita, enfrente sem ambiguidades este neoliberalismo destrutivo de vidas e de esperança, que defenda intransigentemente o Estado social, os direitos laborais, o ambiente e condições de vida dignas para todas as pessoas que com o seu saber e o seu trabalho lutam por um futuro melhor.
Finalmente, a Rede Ecossocialista manifesta profunda solidariedade com as populações que estão a ser duramente afetadas pelos efeitos meteorológicos das recentes tempestades.
Direção Rede Ecossocialista
Fev.2026
Destaques:
Próximas sessões da revista Ecossocialismo:
Lisboa – dia 19 fev. | 18:00 h | BIBLIOTECA CAMÕES.
Vila Real – dia 27 fev. | 21:00 h | CASA DA FIROOZEH SOL.
Manif’s CGTP-IN ‘Abaixo o Pacote Laboral!’
Porto – dia 28 fev. | 10:30 h | Pç. da República.
Lisboa – dia 28 fev. | 14:30 h | Cais do Sodré.

