por Ana Moreno | Membro fundador da Associação Ecotopia Activa
ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, aventou ideias estapafúrdias para a utilização do espaço, ideias muito «originais», que foram desde um restaurante a um «boutique hotel».
Custa a acreditar que um Ministro da Agricultura possa demonstrar tanto desprezo e falta de ligação a um local que ocupou um papel central na história da agricultura algarvia e nacional…
Estamos na época dos «deals» e, até para os governantes, esse «objetivo» é explicitamente colocado no topo dos seus intentos. O argumento económico sobrepõe-se, de longe, a outros valores, sejam eles ambientais, sociais, históricos ou patrimoniais. Apesar de habituados, às vezes custa a acreditar a que ponto se chegou.
Vem isto a propósito do CEAT – Centro de Experimentação Agrário de Tavira, conhecido como o Posto Agrário, que com uma história quase centenária (1926-2026), ocupa um papel central na história da agricultura algarvia e nacional.
Quem chega a Tavira de comboio, logo se depara com o seu edifício principal, uma construção maciça dos anos 1950, no estilo típico do Estado Novo, que se encontra em processo de classificação.
Com o seu potencial e a sua localização privilegiada, o CEAT, tutelado pelo Ministério da Agricultura, tem despertado apetites diversos, alguns dos quais em nada consentâneos com o seu historial e com o papel que deveria continuar a desempenhar na preservação e desenvolvimento de uma agricultura local, resiliente e sustentável.
Uma dessas ideias mais obtusas foi o atravessamento do terreno do CEAT, classificado como área RAN, por uma estrada. Contra esta ideia peregrina levantou-se, em 2020, o Movimento de Cidadãos Pelo CEAT, que conseguiu travar esse desmembramento do Centro, previsto no projeto de eletrificação da linha férrea do Algarve.
Quando falamos no CEAT estamos a falar não só do que foi uma das principais entidades de promoção da ciência agrária, que desempenhou um papel fundamental na investigação agronómica portuguesa, mas também daquilo que tem sido denominado um «imenso património», uma «Arca de Noé», um «repositório único», um «tesouro da biodiversidade da agricultura algarvia», «o principal banco público de germoplasma vegetal e de salvaguarda de material genético do Algarve».
Trata-se de uma área de 29 hectares (ha), onde «temos hoje instalada, preservada e em caracterização uma coleção com mais de 700 referências de fruteiras das espécies típicas do pomar tradicional algarvio às coleções ampelográficas de vinha para vinho e mesa passando pelas maçãs romãzeiras e nespereiras. Algumas, se aqui não estivessem seguras, ter-se-iam irremediavelmente perdido, caso do nosso pêro, maçã de Monchique, quase extinto pelos incêndios», escreve no prólogo do livro «O Posto Agrário de Tavira», Pedro Valadas Monteiro, à época diretor regional da Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Algarve.
E estamos também a falar de um Posto Agrário onde foram cultivados muitos dos cravos distribuídos nas ruas de Lisboa durante a Revolução de Abril de 1974.
Já na candidatura apresentada por sete países à UNESCO para o reconhecimento da Dieta Mediterrânica (DM) como Património Imaterial da Humanidade, que foi aprovada em 2013, Portugal identificava como uma das medidas de salvaguarda da DM a «Instalação do Centro de Estudos sobre a Dieta Mediterrânica, utilizando o edifício integrado no Centro Agrícola de Tavira, em colaboração com o Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território». Vem, pois, de longa data o compromisso de ligar o CEAT à DM.
Mas foi em 2020 que tomou forma a ambição de tornar o CEAT num Polo de Inovação que se constituiria como centro de referência da Dieta Mediterrânica, da qual o município de Tavira é a comunidade representativa.
O conceito, muito abrangente (incluindo o «obrigatório» turismo), mas muito centrado em entidades – algumas das quais pouco ou nada relacionadas com a agricultura local – já deixava de fora os pequenos agricultores locais.
No entanto, pelo menos, mantinha o seu carácter de Centro de Experimentação e fazia jus ao papel do CEAT na promoção da Dieta Mediterrânica.
Segundo a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR)do Algarve, mantinha «a preservação de variedades tradicionais do Algarve», que «pela sua origem e natureza estão enquadradas no conceito de Dieta Mediterrânica, e estão particularmente bem adaptadas às condições edafo-climáticas da região e encerram significativa variabilidade inter e intravarietal, cuja preservação é vital para programas de melhoramento futuros».
No contexto desse projeto, foi atribuído ao Polo da Rede de Inovação de Tavira – Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT), um financiamento de 1.677.789,53 euros, através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), numa candidatura anunciada em dezembro de 2024, destinado à reabilitação do edificado e à renovação integral da rede de rega, infraestrutura fundamental para a realização das atividades de experimentação e demonstração neste polo.
Também a componente agronómica recebeu apoio, a nível de ensaios de campo, com a instalação de colecções de novas espécies, replantação e instalação de cultivares, entre outras.
Em paralelo, nos últimos anos, a classificação e requalificação do (CEAT) tem sido assunto central nas reuniões semestrais de trabalho do Plano de Ação para a Salvaguarda da Dieta Mediterrânica 2023-202, realizadas com cerca de 30 entidades, entre as quais a Universidade do Algarve (UAlg) e CCDR Algarve.
Apesar de tudo isto, sob a tutela do atual Ministério da Agricultura, o futuro do CEAT está em perigo.
Por um lado, porque com a saída dos dois últimos assistentes operacionais de campo e com o término do projecto do PRR referente à qualificação dos Polos de Inovação, neste momento o CEAT não dispõe de ninguém a trabalhar nos seus campos.
E, por outro, porque, acredite-se ou não, numa visita que fez ao CEAT o próprio ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, aventou ideias estapafúrdias para a utilização do espaço, ideias muito «originais», que foram desde um restaurante a um «boutique hotel».
Custa a acreditar que um Ministro da Agricultura possa demonstrar tanto desprezo e falta de ligação a um local que ocupou um papel central na história da agricultura algarvia e nacional, com enorme valor cultural identitário e histórico, e que é um repositório genético de material vegetal de referência único e insubstituível do património agrícola do Algarve.
Sr. Ministro, restaurantes é o que mais há em Tavira, e hotéis não faltam.
A bem dos tavirenses, dos algarvios e do país, deixe lá o negócio fácil e lucrativo na restauração e hotelaria.
Seja visionário e promova um CEAT que esteja à altura da sua história, do seu valor para a biodiversidade e o património agrícola, da sua importância para um futuro sustentável e que promova os valores culturais e naturais inerentes à Dieta Mediterrânica.
Isso sim, seria serviço público.
[publicado originalmente em “Barlavento”: O futuro do Centro de Experimentação Agrário de Tavira está em perigo

