por David Broder [revista Jacobin]
O líder húngaro Viktor Orbán combinou conversas sobre defender as tradições húngaras com uma promessa de prosperidade. Quando parou de dar boas notícias económicas aos trabalhadores, a mensagem da guerra cultural não foi suficiente para salvá-lo.
Reagindo à notícia da derrota de Viktor Orbán na eleição húngara de domingo passado, muitos de seus admiradores insistiram que ele tinha feito um bom trabalho. Jordan Bardella, presidente do Rassemblement National da França [extrema-direita], escreveu que Orbán “liderou a recuperação económica da Hungria, promoveu políticas familiares que ajudaram a manter a taxa de natalidade e defendeu o seu país e as fronteiras da Europa contra a migração.” O líder nacionalista holandês Geert Wilders insistiu que Orbán era “o único líder com coragem na UE”; para outros, o facto de ele ter admitido a derrota provava o seu espírito democrático.
Muitos relatos focam o domínio autoritário de Orbán sobre o poder, seja reescrevendo a Lei Fundamental ou adaptando o Tribunal Constitucional. A influência do seu partido Fidesz na mídia pública e no sistema educacional também foi uma ferramenta importante para moldar opinião.
No entanto, o facto de Orbán ter sido agora destituído nas urnas mostra-nos que ele dependia de um tipo de apoio orgânico que se esgotou. Enquanto a participação dos eleitores disparou no domingo, a base do seu partido Fidesz diminuiu de 3,1 para 2,3 milhões.
Num artigo pré-eleitoral, escrevi sobre a promessa de Orbán de uma “sociedade baseada no trabalho” e uma economia baseada na criação de empregos. Colocar os húngaros no trabalho, argumentou após a crise económica de 2008, torná-los-ia mais autossuficientes do que se dependessem de crédito ou benefícios sociais. Em comícios antes da votação de domingo, Orbán falou sobre aumentar o número de empregos em mais de um milhão desde que retornou ao cargo em 2010 (o aumento, segundo dados oficiais, foi mais próximo de 750.000). No entanto, se houve um progresso rápido desse indicador antes da eleição de 2022, ele acabou por estagnar.
A pandemia de COVID-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia minaram o pacto social sobre o qual a Orbánomics foi construída. Como aponta Dávid Karas, enquanto a retórica de Orbán após a crise de 2008 focou em recuperar a “soberania”, o plano de empregos da Hungria continuava dependente de investimentos estrangeiros diretos, desde montadoras alemãs a empresas chinesas de baterias elétricas.
A política governamental não visou fortalecer os direitos laborais, mas criar uma força de trabalho de baixos salários atraente para investidores privados e multinacionais. Esse modelo permaneceu vulnerável a choques globais, que vão desde a pressão da UE (mas também trumpiana) para se desvincular do gás russo até à mais recente guerra desencadeada por EUA-Israel.
Dados económicos de destaque não são a única chave para entender a derrota de Orbán. O facto de o vencedor final, Péter Magyar, ter originalmente vindo do partido Fidesz, de Orbán, antes de ter ajudado a revelar um dos seus grandes escândalos (a ocultação de abuso sexual infantil), também mostra como a autoridade moral do partido desmoronou.
No entanto, a ascensão e declínio de Orbán pode, nos seus termos mais básicos, ser reduzida a parâmetros também úteis para entender outros contextos, e até mesmo o trumpismo. À direita construiu uma nova coligação eleitoral que abrangeu as classes média e trabalhadora, chegando a integrar largamente voto de minorias étnicas, mas acabou esgotando a confiança desses apoiantes.
Admiradores Estrangeiros
Para os admiradores internacionais de Orbán, os resultados importavam menos do que a narrativa por trás deles. Os vitupérios contra os “globalistas” e alegar defender a soberania contra o neoliberalismo ofereceram uma história heroica para as suas próprias lutas. Era uma narrativa civilizacional sobre ameaças sombrias ao Ocidente e a resistência contra elas.
Em encontros conservadores como os comícios da NatCon, patrocinados por think tankers alinhados com Budapeste, Orbán impressionava o público estrangeiro ao fazer-se passar por um Davide em luta contra gigantes globalistas — George Soros, ou o “marxismo cultural”, ou até mesmo o autofinanciamento. Orbán queria lutar novamente pela revolução anticomunista de 1989 e ofereceu a outros membros da direita um lugar ao seu lado.
A Hungria era uma utopia conservadora? Os seguidores do Orbánismo ficaram facilmente impressionados com outdoors no aeroporto de Budapeste proclamando as políticas pró-família da Hungria e a segurança do centro da cidade. Visitar os distritos turísticos da capital (desde 2019 dirigidos por um autarca Verde e da oposição) sempre proporcionou uma compreensão limitada do Orbánismo. O boom da construção civil e o aumento do número de empregos para a etnia cigana certamente contribuíram mais para o apoio a Orbán do que os estudantes entusiasmados pelo ideólogo conservador Roger Scruton. Na prática, políticas pró-natalistas famosas, como incentivos fiscais para famílias trabalhadoras, pouco fizeram para resistir à queda de longo prazo nas taxas de natalidade.
Antes desta eleição, parecia que a guerra cultural era tudo o que restava para Orbán, e foi suficiente para conquistar apoios de Donald Trump e J. D. Vance. Questões como o mau estado do sistema de saúde pública e a reversão das tendências económicas de que Orbán se tinha gabado anteriormente tornaram-se meros constrangimentos para o suposto homem forte.
Os esforços para pintar Magyar como um instrumento da Comissão Europeia e do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky podem ter mobilizado os fiéis do partido Fidesz, mas aparentemente estavam distantes das preocupações que motivavam a maioria dos eleitores.
No entanto, o fracasso das tentativas de Orbán de demonizar Magyar como um radical perigoso também aponta para outro aspeto desse resultado: essa mudança eleitoral não representa uma reformulação drástica dos pressupostos políticos. Magyar é conservador e, na sua própria campanha, manteve muitas das promessas do Fidesz, especialmente no que diz respeito à política de bem-estar social e imigração. As relações com a União Europeia representam uma mudança mais óbvia, não tanto porque Orbán tenha resistido ao bloco defensor do aumento de gastos com armamentos (ele não resistiu), mas por ter rejeitado frequentemente a ajuda da UE à Ucrânia.
O sucesso de Magyar pode ser tomado como evidência de um argumento que esta revista sempre rejeitou no contexto dos EUA: que a forma de vencer a extrema-direita de Orbán era apresentar-se como uma alternativa moderada e competente, ocupando o centro. Na longa preparação para essas eleições, o partido Tisza, de centro-direita de Magyar, conseguiu incorporar o espaço da esquerda liberal para si, mantendo-se afastado de conflitos como a proibição do desfile do Orgulho em Budapeste; Magyar também adotou uma forte postura anti-imigração. O Orbánismo ofereceu aos seus eleitores um caminho para a prosperidade da classe média, e foi nesse mesmo espírito que muitos deles se voltaram para o Tisza.
No entanto, os sucessos passados de Orbán também mostram os limites dessa abordagem centrista. Como outras forças populistas de direita contemporâneas, o Fidesz venceu ao expandir a sua base com a promessa de recuperação económica. Quando o Orbánismo afirmou desafiar o neoliberalismo e aumentar empregos, isso funcionou devido aos fracassos dos governos da era de crise liderados pelos social-democratas e seus aliados centristas. Magyar venceu não apenas porque parecia mais competente, mas porque, após dezasseis anos, o modelo alternativo de “economia baseada no trabalho” de Orbán havia sido testado até à exaustão.
Alguns socialistas húngaros com quem conversei durante esta campanha não ficaram nada satisfeitos por terem de votar nesse mal menor [o Tisza], mas ficaram encantados com a derrota de Orbán. A ascensão de Magyar não oferece mudanças da noite para o dia nem mesmo a promessa dela: os choques globais que ajudaram a acabar com o modelo de Orbán estão a piorar em vez de melhorar, e parece improvável que esta derrota castigue Trump.
O que ao menos tivemos foi uma demonstração do vazio do conservadorismo “pró-trabalhador” e um golpe para um dos principais centros da internacional nacionalista de hoje.

