Extrativismo digital: quando a Inteligência Artificial exige energia, água e território

por Pedro Soares

A própria designação de Inteligência Artificial (IA) começa por ser enganadora: não se trata propriamente de inteligência, nem é simplesmente artificial. Estamos perante uma tecnologia digital que se apresenta como imaterial, quase etérea, que vive na “nuvem” (cloud) e cujo funcionamento parece dispensar recursos físicos e orgânicos. Na realidade, porém, essa tecnologia não existe sem uma gigantesca infraestrutura material. Não existe IA sem enormes datacenters, e não existem datacenters sem intervenção humana, sem grandes quantidades de eletricidade, água, território, redes de transporte e distribuição de energia, cabos submarinos, semicondutores e equipamentos.

A chamada “nuvem” está, portanto, bem assente na terra, e é disso que precisamos de tratar.

Google, Apple, Meta, Amazon, Microsoft e IBM, algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo, sediadas nos EUA, apostam na IA como uma nova ferramenta de concentração de informação, conhecimento e capital e, consequentemente, de poder, a uma escala sem precedentes. A corrida à IA é também uma corrida pelo controlo de uma infraestrutura tecnológica estratégica, inclusive militar, capaz de reforçar a concentração económica e política nas mãos de um número muito reduzido de empresas.

Esta vertigem pelo poder apoiada na IA está a desencadear uma nova corrida mundial à construção de datacenters. As grandes empresas tecnológicas — as big tech — investem centenas de milhares de milhões de dólares na expansão desta infraestrutura. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o investimento mundial em datacenters praticamente duplicou desde 2022, atingindo cerca de 500 mil milhões de dólares em 2024. O consumo elétrico dos centros de dados chegou, nesse ano, aos 415 TWh [1] e poderá ultrapassar os 945 TWh em 2030.

Os impactes nos territórios são preocupantes, sobretudo pela concentração de consumos de energia que podem atingir uma dimensão superior à de muitas cidades. É neste contexto que Portugal surge como território particularmente apetecível e Sines está no topo das preferências.

Portugal dispõe de uma produção crescente de eletricidade renovável, uma posição geográfica privilegiada, cabos submarinos, condições climáticas favoráveis, infraestruturas industriais e urbanas, disponibilidade de terrenos a preços comparativamente reduzidos perto dessas infraestruturas, além de condições energéticas potencialmente competitivas para grandes consumidores. Sines reúne muitas destas condições. O projeto SINES Data Campus, da Start Campus, prevê até 1,2 GW de capacidade, enquanto o Governo anunciou também um investimento de 10 mil milhões de dólares da Microsoft associado à infraestrutura de IA em Sines. Entretanto, a Amazon estabeleceu um contrato de aquisição de longo prazo de eletricidade correspondente a 80% da produção de um dos maiores parques eólicos do país, no Alto Tâmega.

É neste ponto que se impõem algumas perguntas: Que economia digital queremos? Para quem? Com que energia? Com que água? E com que custos para os territórios e para os restantes consumidores?

Não basta chamar “verde” a um datacenter porque compra eletricidade renovável ou utiliza água do mar para refrigeração. A questão fundamental permanece: qual é a gigantesca quantidade de energia e de infraestrutura que estes projetos mobilizam e quem suporta os seus custos?

O problema não é apenas saber se a eletricidade utilizada é renovável. É saber quanta eletricidade é retirada do sistema, em que momentos, com que investimentos adicionais na rede e com que prioridade relativamente a outros usos sociais e económicos.

Em Portugal, o consumo de eletricidade abastecido pela rede pública atingiu, em 2025, 53,1 TWh, o valor anual mais elevado de sempre, enquanto a produção renovável chegou aos 37 TWh, correspondendo a 68% do consumo. Em Sines foram atribuídos cerca de 4,9 GW de capacidade de ligação à rede para novos grandes consumidores de eletricidade — uma potência equivalente, em ordem de grandeza, a vários milhões de consumos domésticos.

Estamos, portanto, perante uma disputa pelo futuro da rede elétrica. E essa disputa não é neutra.

A rede, as subestações, as linhas de muito alta tensão e os restantes equipamentos necessários para responder a estes novos grandes consumidores têm custos. Grande parte desses custos é suportada e integra a infraestrutura regulada do sistema elétrico. As tarifas de acesso às redes são pagas por todos os consumidores e refletem os custos das infraestruturas e dos serviços partilhados do sistema.

Por isso, há uma pergunta que não pode ser ignorada: quem paga os investimentos adicionais necessários para integrar estes enormes consumos e como são repartidos esses custos?

É uma questão que deveria estar no centro do debate público antes da atribuição de novas capacidades de ligação à rede.

Há também uma contradição mais profunda.

O país tem feito algum investimento na expansão das energias renováveis, na eletrificação dos transportes, na descarbonização da indústria e na eficiência energética. Mas, se simultaneamente uma parte crescente da nova capacidade renovável for canalizada para alimentar uma corrida global à computação e à IA, temos de perguntar: estamos perante uma verdadeira transição energética ou perante uma nova forma de extrativismo energético?

O território produz energia renovável; as grandes empresas tecnológicas apropriam-se dessa energia para alimentar serviços digitais globais; os lucros são internacionalizados, enquanto os custos territoriais — linhas, subestações, ocupação do solo, pressão sobre recursos, impactes ambientais e investimento em infraestruturas — podem acabar por ser, em parte, suportados pela sociedade.

É esta relação que permite falar de uma nova forma de extrativismo: um verdadeiro extrativismo digital, que cresce à medida que cresce a economia da computação e da IA.

É preciso, por isso, dizer com clareza que a ideia de que qualquer crescimento tecnológico é automaticamente sinónimo de progresso social é falsa. Afinal, quais são as utilizações socialmente úteis da computação e da IA? E quais correspondem simplesmente à expansão e à disputa pelos mercados das big tech, ao consumo supérfluo e à crescente concentração de poder económico e político?

A questão central não é construir datacenters embalados pela propaganda de que representam, por si só, o progresso. É decidir democraticamente se devem ser instalados, onde, para quê, em que quantidade e sob que condições.

Portugal não deve transformar-se numa espécie de plataforma energética barata para a computação global, oferecendo às grandes empresas tecnológicas acesso privilegiado a eletricidade renovável, território e infraestruturas, enquanto os benefícios sociais se evaporam e os custos são socializados.

Para o movimento ecossocialista, a energia renovável deve ser encarada, antes de tudo, como um bem estratégico de interesse coletivo, produzido e distribuído de forma tão descentralizada quanto possível e planeado com respeito pelos territórios. Não deve ser reduzida a uma nova mercadoria abundante, colocada prioritariamente à disposição de quem tiver maior capacidade financeira para a comprar.

Isso implica transparência sobre os contratos e benefícios concedidos aos grandes consumidores, avaliação pública dos impactes cumulativos, contabilização das pegadas energética e hídrica, planeamento democrático da rede, prioridade aos consumos socialmente essenciais e mecanismos que assegurem que os grandes consumidores suportam uma parcela justa dos custos adicionais que provocam.

A cloud não está no céu. Está em Sines, nas linhas de alta tensão, nas subestações, nos cabos submarinos, nos processadores, nas minas e nos trabalhadores que extraem os materiais e que alimentam tecnologicamente esta indústria, na água e energia necessárias para manter tudo isto a funcionar.

E é precisamente porque a chamada Inteligência Artificial é material, que deve ser objeto de uma escolha democrática, ecológica e social — e não simplesmente o resultado das decisões de investimento das grandes empresas tecnológicas, como tem vindo a acontecer, e que, em geral, têm contado com a mão amiga dos governos.


[1] Um TWh (terawatt-hora) é uma unidade de energia equivalente a mil milhões de kWh ou mil GWh.

Pedro Soares

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