O FMI já começou a dar sinais sobre a sua tradicional receita, alertando para a “urgência” do regresso à austeridade orçamental em nome de ”pesadelos que ensombram a economia e a geopolítica globais”, lê-se no Expresso, 9 de outubro.
Como já não fossem suficientemente graves as consequências políticas, sociais e económicas, resultantes da austeridade e instabilidade intensificada com a prolongada guerra na Ucrânia, quatro anos após a invasão pela Rússia, bem como o ataque conjunto de Israel e Estados Unidos ao Irão, em fevereiro deste ano.
Guerras de agressão imperialistas, que rapidamente puseram a nu os verdadeiros propósitos expansionistas e económicos dos invasores, tal a disputa geoestratégica pelas riquezas naturais, terras raras e o domínio do petróleo e suas rotas de distribuição, como campos de batalha fratricida às portas da Europa e no Médio Oriente, que vêm estrangulando a economia, arrastando os povos para pesadelos de desumanização, indignidade, terror e morte, assentes em politicas ultraliberais sugeridas como milagres económicos da extrema-direita a exemplo da Argentina.
Mas, com a crise dos combustíveis agravada com a desestabilização no Médio Oriente, e o negócio do petróleo nas mãos dos senhores da guerra, a imporem vertiginosa austeridade e subida da inflação, que em Portugal atingiu os 3,6% em Setembro. Que mais sacrifícios quer o FMI para as famílias, que há muito vêm resistindo à dura austeridade provocada pelos conflitos de rapina no Planeta, e politicas de governos que têm como prioridade, investir em armas para alimentar a industria da guerra, sacrificando áreas sociais como a Saúde.
Segundo a proposta de Orçamento do Governo AD, que tem a sua aprovação antecipadamente garantida pelo PS, deixando campo aberto ao populismo do Chega, que deixou bem clara a sua missão no sistema, aprovando a lei do Governo sobre as rendas e despejos, favorável aos senhorios, agravando as dificuldades no arrendamento e no direito a uma vida minimamente digna.
O FMI veio sugerir a adoção de “planos credíveis de consolidação orçamental a médio prazo”, que só podem significar bons estímulos às políticas liberais para aumentar ainda mais a fragilidade e desagregação do Estado social, referindo-se à economia mundial como estando a ser “puxada em duas direções: um choque negativo de oferta de energia e um choque positivo de procura provocada pela IA.”
Acrescentando que, “o impacto combinado destas duas forças é muito desigual em diferentes partes do mundo.” Concluindo então que, “Neste quadro, há três alvos centrais: a inflação que persiste, a dívida e a supervisão da IA.” Recado deixado pela búlgara, Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, particularmente a países do euro, com níveis de divida considerados elevados, em que, “a situação é mais difícil, uma vez que os spreads (prémios de risco) das obrigações face às obrigações soberanas alemãs (Bunds) continuam a aumentar – não apenas em França e Itália, mas também na Irlanda, em Portugal e noutros países que conseguiram reduzir a sua dívida e os seus défices após a crise da área do euro”.
Compromissos dos governos às exigências da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), sempre sacrificando os rendimentos das famílias, que, por cá, entre 2011 e 2015, foram sujeitas às políticas de Passos Coelho, que foram além da Troika no empobrecimento do país. Quadro político de há uma década, que curiosamente, as recentes aparições e declarações do então primeiro-ministro Passos Coelho, não podem apagar os ataques aos trabalhadores e pensionistas.
Politica de austeridade e retrocesso social, só travado pela luta e pelo designado governo da geringonça, que, sem nunca abandonar uma certa austeridade, a exemplo das celebres cativações de Mário Centeno, com grande incidência na saúde e no investimento público. Foi possível enfrentar com a resposta de união de forças à esquerda, viabilizando o governo do PS liderado por António Costa, e assim impedir que a direita prosseguisse a sua política revanchista, garantindo a reposição de alguns dos direitos cortados abruptamente pela Troica e pelo então Governo do PSD/CDS.
A tradicional receita do FMI
Como costume, o FMI recorre ao seu tradicional remédio da austeridade, em resposta à “conjuntura mundial”, ao mesmo tempo que, governantes autocratas, gerem as guerras e a crise do petróleo em função dos seus interesses imperiais e imperialistas. Isto à custa do sacrifício dos seus próprios povos e do mundo em geral, em que vão despoletando convulsões sociais como resposta a tanta intolerância e prepotência da violência do poder, sobre a justa indignação e revolta de vários setores profissionais e camadas sociais das populações, esquecidos pelas políticas de ataque económico, social, laboral, e necessidades básicas do povo que corajosamente ocupa as ruas em Espanha ou na França, assim como os sinais de adesão que começam a organizar-se também em Portugal, contra as políticas especulativas na habitação, e desinvestimento na saúde, educação ou melhores salários.
Movimentos populares e suas reivindicações, que contrastam com as teorias de reduzir as dívidas e os défices, cortando nos direitos adquiridos e na componente social, que só terão tendência a agravar-se com este tipo de alertas do FMI sobre a sua recorrente receita de mais austeridade, ainda que, com a espectativa de a IA vir a adicionar, “meio ponto percentual ao crescimento mundial,” ao mesmo tempo que alerta, “Governos e os bancos centrais de que regressámos a uma era de contas certas e juros altos”. Como que, a convencer os povos que só têm o caminho do sofrimento com mais austeridade.
Certamente que a IA não se queixará da austeridade sugerida pelo FMI, nem mesmo da austeridade imposta pelas guerras, nas quais tem cada vez mais relevância estratégica. No entanto, a pesada austeridade resultante das guerras é um fator determinante na vida das pessoas, particularmente as provocadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao atacar o Irão, enquanto Benjamin Netanyahu prossegue com as suas tropas israelitas a limpeza étnica sobre os palestinianos, para desestabilizar regiões como o Médio Oriente dando origem à crise no Estreito de Ormuz e à consequente crise do petróleo, bem como dos fertilizantes e dos cereais.
A aventura imperialista é igualmente responsável pela instabilidade ambiental no Planeta, tais são as consequências das alterações climáticas a que está a ser submetido com as guerras e com o intensificar da exploração de combustíveis fósseis, tentando negar futuro às energias alternativas que não sendo garante de paz, podem trazer esperança num Planeta melhor, quando os povos de vários continentes são esmagados por diferentes tipos de catástrofes naturais, cujas politicas preventivas e de resgate das principais vitimas que sempre recaem sobre os mais desfavorecidos, são limitadas por tantas outras politicas de austeridade, contrariamente aos recursos financeiros disponíveis para alimentar as guerras.


