por Mário Tomé
Vamos comemorar mais um ano do 25 de Abril. Continua a ser uma boa ocasião para, uma vez mais, lançarmos um olhar crítico sobre a realidade e a importância dessa data.
Em primeiro lugar, foram as grandes manifestações do Primeiro de Maio de 1974 que lhe conferiram o peso massivo, operário e popular, que iria determinar os contornos da “revolução de Abril”, no que passou à história com a designação de PREC (“processo revolucionário em curso”).
O PREC durou 19 meses, dezanove meses em que a democracia existiu realmente, impulsionada e sustentada pela luta dos trabalhadores, impondo um ritmo e uma orientação que, sem eles, o 25 de Abril não passaria de um aval ao golpe de Estado levado a cabo pelos capitães, para acabarem com a guerra colonial.
A luta popular em defesa da paz, da liberdade e, afinal, condição sine qua non,então como agora, dos direitos e interesses socioeconómicos e culturais dos trabalhadores, sistematicamente sonegados e ultrajados, esteve na base da Constituição da República (CRP), hoje sob ameaça salazarenta.
A CRP foi resultado de um “compromisso histórico”, entre a força da luta dos trabalhadores e dos estudantes, uma aliança vigorosa e transformadora desde o inesquecível e sempre inspirador Maio de 68, e a resistência reaccionária das políticas herdeiras do fascismo e as herdeiras do antigo vigor das forças que se bateram pelo socialismo e desistiram por cobardia ou por cumplicidade num miserável e vergonhoso 25 de Novembro.
São essas forças políticas que, em nome da estabilidade da exploração e das fortunas sem sentido, tentam acabar com o vigor da luta.
São essas mesmas forças políticas que, dirigidas e sustentadas por assassinos de voz meiga, se aliaram e aliam aos genocidas de Israel, ao Estado terrorista dos EUA e se submetem ao cinismo democrático da União Europeia.
Sem pudor, sujeitam o nosso povo a uma ameaça latente e permanente de uma guerra imposta por um ogre ( “gigante de aparência grotesca e ameaçadora que se alimenta de carne humana” ) que ainda por cima se recreia a mandar-lhes lamber o rabo: kiss my ass, o que todos fazem lambendo-se também, a seguir, como sabujos que são.
O 25 de Abril resultou da luta pela liberdade dos povos colonizados pelos burgueses lusitanos, republicanos e logo fascistas, clamando pela pátria, a mesma pátria que, sarcasticamente, Jorge de Sena confessa que queria beijar na boca. A Pátria que serve sempre de justificação para fazer da juventude a carne para canhão de todas as guerras nacionalistas e imperialistas.
A mesma Pátria que Jorge Sampaio, na sua ingénua sujeição ao mito, proclamou como causa da morte de 10 mil soldados, que na guerra colonial, foram sujeitos à violência fascista do capitalismo de então e, de novo, outros tantos estarão a ser insuflados de patriotismo para terem o mesmo destino…quem sabe?!
É urgente que o pensamento crítico e o conhecimento científico se libertem de novo e imponham, agora que ambos estão sob ameaça mortal, primeiro com o ataque a Marx nas escolas e universidades a que se seguiu o ataque a Darwin e, agora, com o ataque à mais singela lucidez metafísica cartesiana.
A quem interessa esta elisão, do que de mais avançado a humanidade produziu e esteve na origem da própria Declaração dos Direitos Humanos por sobre a vitória, em 1945, contra o apocalíptico Holocausto?
Podemos encontrá-los nos que o reproduzem em Gaza e lançam a bestialidade a ferro e fogo sobre o mundo em geral.
Dos que, por cá, formigas com catarro, querem reforçar as nossas capacidades militares às ordens do império, quando não conseguem apagar os incêndios florestais a tempo e deixam as vítimas das catástrofes penduradas de promessas intencionais, à espera, pacificamente, com espírito patriótico.
Ei-los que, com a IA, supõem libertar-se da luta dos humanos, que tentam apagar com o peso de uma ideologia que lhes garante ser o capitalismo o fim da história. E, vale mais prevenir que remediar, preparam a instalação na Lua ou em Marte, onde esperam futuramente refastelar-se, sem a pressão dos que foram obrigados a ficar por cá.
O imbecil nazista infantilizado, cheio de poder material, sem sentido humano, um tal de Elon Musk, é a representação explícita da afirmação de Walter Benjamin, de que o desenvolvimento da técnica e das ciências, que não as naturais, leva à guerra e à sua exploração pela imprensa, como tão bem interpreta Karl Kraus no seu inultrapassável os últimos dias da Humanidade.
Com o capitalismo, temos visto que não se aprende nada. E a malta é levada a aceitar bovinamente que é assim…porque é assim, enquanto morre em guerras imbecis e criminosas.
Precisamos urgentemente de manter a utopia. Precisamos urgentemente de Um Barco no Mar, o barco de Eugénio de Andrade, precisamos urgentemente de perceber com Oscar Wilde que o “liberalismo” é a ambição maior da sociedade humana e que o “liberalismo só é possível no socialismo”. Como proclamaram Kropotkine, Bakunine, até mesmo Wagner na Primavera dos Povos, em1848, Marx e a malta toda em luta durante o PREC.
É tempo de aprender que todas as lutas só se safam se enquadradas num projecto novo, de futuro. Estamos fartos do enjoativo vai-vem, que entontece e só dá vómitos e desgraças.
E que, com o que se aprendeu com as investidas ditas socialistas, o futuro da humanidade só é garantido pelo ecossocialismo.
Não há socialismo sem ecologia nem ecologia sem socialismo.
Quod erat demonstrandum.

[Originalmente publicado no jornal “& Toma Lá”]

