por Luís Mouga Lopes
A importância dos pastores no interior de Portugal, em especial na Beira Alta, deve ser vista para além da atividade agrícola. Em regiões envelhecidas, pobres, despovoadas e expostas ao risco de incêndio, o pastor é também gestor do território, prestador de serviços ambientais e fator económico. Por estas razões, a pergunta económica é simples: quanto custa ao país abandonar o território?
Quando uma zona rural perde população, perde vigilância, conhecimento local, a manutenção dos caminhos e a gestão da vegetação. O resultado é a acumulação de matos, ervas secas e biomassa combustível e, em verões quentes e secos, essa biomassa transforma-se em um risco económico, ambiental e humano.
A regra económica é clara: se o custo esperado de um incêndio for superior ao custo da prevenção, a prevenção deve ser um investimento público, sendo que esse custo combina a probabilidade de incêndio com o valor dos prejuízos: casas, explorações agrícolas, floresta, infraestruturas, vidas humanas, combate e reconstrução.
A OCDE estima que os incêndios em Portugal custem entre 60 e 140 milhões de euros por ano. Em 2017, em junho e em outubro, custaram quase 1,5 mil milhões de euros. É aqui que os pastores têm valor económico mensurável, visto que o pastoreio regular reduz a necessidade de combustível. Cabras, ovelhas e outros animais consomem vegetação rasteira e criam descontinuidades no coberto vegetal. Estas realidades não eliminam o risco de ignição, mas podem reduzir a velocidade de propagação e a intensidade das chamas.
Note: em Portugal continental, cerca de 30,6% do território apresenta perigosidade rural de incêndio alta ou muito alta, o que indica que a gestão do combustível vegetal não pode depender apenas de máquinas, de sapadores ou de ações pontuais. O interior precisa de presença humana, de atividade económica regular e de conhecimento local.
Quando a pastorícia desaparece, desaparecem os rendimentos, as famílias, os serviços e as razões para ficar, pois, além de vender leite, carne, queijo ou animais, o pastor conserva paisagens e sustenta a economia local. Como o mercado não remunera esses benefícios, justificam-se políticas públicas de apoio, tais como serviços de ecossistema, pastoreio dirigido, apoio veterinário e integração nos planos de combate a incêndios.
Apoiar pastores e agricultores é mais barato do que gastar todos os anos em bombeiros, aviões, helicópteros, indemnizações e reconstrução. Onde há abandono, pobreza, envelhecimento e risco de incêndio, estes profissionais de mão cheia constituem uma infraestrutura humana de prevenção, vigilância e gestão territorial.
Luís Mouga Lopes

