por Vítor Serrão
A História-ciência é cada vez mais necessária. O seu conhecimento, a informação que proporciona sobre nós próprios e sobre o devir das sociedades, e o seu sentido de prevenção do futuro, permite-nos ler melhor os nossos tempos, avaliar conquistas e carências, sucessos e misérias.
Se soubéssemos mais de História, se a memória histórica alimentasse o sentido de pertença identitária das pessoas, com maior certeza se enfrentariam as deturpações e falsidades dos ‘fake’ e se multiplicariam os saberes a que todos temos direito e ainda permitem enfrentar as causas das fomes, das guerras, da destruição ambiental, do declínio dos Estados sociais e da quebra do capital de esperança que deveria alimentar a genuína vontade dos povos em gerar aos seus descendentes um futuro sustentado e humanizado.
Isto vem a propósito do projecto tecno-fascista e supremacista que está em curso no Mundo de hoje e que, em meia dúzia de anos, já não esconde ao que vem: abolir todos os princípios democráticos, a consciência ecológica, as conquistas sociais, o conhecimento científico, os avanços progressistas, a cultura de partilha e a própria paz.
E vale tudo neste combate anti-civilizacional: sob a batuta de Steve Bannon, Peter Thiel e outros arquitectos do MAGA trumpista, seguidos pelos arautos da extrema-direita global e do ultra-liberalismo modelo Milei, está a desenhar-se mesmo um Mundo sem democracia, sem multilateralismo, sem ambiente respirável nem resquício de Estado com princípios éticos. Essa é a agenda que os novos cavaleiros do Apocalipse estão a construir: um paraíso ultraminoritário e um imenso «barranco de cegos» onde milhões e milhões de pobres e alienados se irão perder sem remissão !
Esta agenda das extremas-direitas globais, que usam e desvirtuam conceitos como «Liberdade», «Deus» e «Democracia liberal» e que abusam das crenças religiosas com «guerras santas» que são de etnocídio e de cobiça, está bem descrita em estudos recentes de Naomi Klein, jornalista de The Guardian, e Astra Taylor, realizadora de cinema, ambas autoras do livro ‘The Rise of End Times Fascism and the Fight for the Living World’ (Penguin Books). Aí defendem a tese de que as direitas sucumbiram ao que chamam «complexo do Armaggedom» e aos seus dúbios encantos, no desejo de esgotar os recursos da Terra e as riquezas naturais dos países em proveito de uma minoria de possidentes, multiplicando guerras e entupindo os governos com ‘fakes’ e demais contra-informação, mesmo que tal comportamento inviabilize a própria vida humana num planeta perecível como o nosso…
A amarga ironia é que as massas atraídas pela extrema-direita global e que seguem o canto de sereia destes inimigos da Ciência, da Cultura, do Ambiente e dos direitos dos povos, são elas próprias vítimas dessa mesma alienação e meros instrumentos descartáveis dos interesses supremacistas desse pequeno grupo de possidentes que seguem ! Por mão amiga, também a tradução portuguesa do livro de Arnaud Miranda ‘O Iluminismo das Trevas. Compreender o Pensamento Neorreaccionário’ (Edições 70) ajuda a caracterizar este novo-velho tempo que nem as piores distopias imaginariam assim…
Em crónica recente no Ípsilon, o filósofo António Guerreiro sintetiza o que sentimos: tudo isto é mesmo muito aterrador ! O livro de Naomi Klein e Astra Taylor, citado a propósito, investiga essa «aliança apocalíptica entre nacionalistas ditos ‘cristãos’, bilionários tecnológicos e sobreviventistas de extrema-direita, unidos para acelerar freneticamente o fim do Mundo e assegurar a sobrevivência de um grupo auto-protegido num sistema supremacista bunkerizado». Quem estiver atento a seguir o Mundo sem se deixar contaminar pela propaganda ultra-direitista, acaso duvidará desta análise tão assertiva ?
Terrível distopia esta, com que as elites bilionárias de Silicon Valley e seus sequazes ao nível global praticam a guerra aberta contra os direitos sociais e autonomia dos Estados, promovem invasões e mortandades, defendem a depradação dos recursos do Planeta, visando apenas e só o seu proveito, mesmo que efémero; a insânia leva-os a imaginar «cápsulas e fortificações», como diz Guerreiro, que os protejam dos cataclismos !
Nunca como hoje os valores de inclusão, igualdade com direitos e deveres, cultura de partilha, solidariedade, foram tão valiosos. Perante o momentâneo sucesso destes novos bárbaros que avançam, resta-nos a cultura da informação plural, a luta dos povos pelos seus direitos, a afirmação de soberania nacional e a resistência sem ambiguidade em prol das identidades primordiais.
No caso português, resta-nos assumir a defesa da Constituição de Abril e o seu aprofundamento, o esforço democrático por uma melhor educação pública, mais cultura com mais direitos sociais, melhores políticas ambientais, civismo e, sobretudo, um compromisso alargado de resistência consequente que permita enfrentar o anunciado Armaggedon.
…Por vezes há quem escalpelize o «uso deslocado» que faço da História da Arte e a análise de certas obras à luz dos alertas que sempre trazem para as sociedades de hoje, ameaçadas pelo tecno-fascismo que chega. Mas como esquecer Pieter Brueghel o Velho e a sabedoria dos seus quadros, revistos a cinco séculos de distância? Por exemplo, o seu ´’Triunfo da Morte’ (1562, Museu do Prado), a sua ‘Parábola dos Cegos’ (c. 1565, Prado), esgotam a sua lição ética na realidade das lutas religiosas do tempo do pintor ? Ou, ainda, o óptimo painel ‘Jesus Cristo meditando’, de Luís de Morales (c. 1565, Prado), que bem pode ser visto como surdo e continuado protesto contra as sinistras aviltações do Evangelho, a que, tal como ontem, hoje assistimos ?
Contra o fascismo do fim do mundo, as obras da Literatura e da Arte são eternos faróis acima de qualquer neutralidade: ensinam, avisam e ajudam a resistir. São testemunhos estéticos e éticos em aberto.

(publicado originalmente no Público de 10.agosto.26).

