Cenários globalmente inquietantes sobre degradação dos solos

por José Carlos Lopes

“Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança” é o lema da “Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que decorreu de 17 a 28 de agosto, na Mongólia”, em que Portugal esteve representado por dirigentes do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e da Agência para o Clima. Deste evento, divulgado na imprensa a exemplo do ‘Expresso’ (21 de agosto), destaca-se, como particularmente grave, a realidade identificada no Alentejo e no interior das regiões Centro e Norte.

Trata-se de uma realidade a nível global, com “cerca de 40% dos solos do planeta degradados”, que só parece deixar indiferentes negacionistas e governos autocráticos. Mas também inconsequentes os governos democráticos ou de espaços como a UE, em que se desvalorizam os prometidos e urgentes investimentos que contribuam no combate à degradação dos solos, assim como à desertificação. A Comissão Europeia indica que “cerca de 12% do território da UE sofre com este fenómeno e 70% dos solos estão degradados, afetando mais de 40 milhões de pessoas”. Números preocupantes que exigem reflexão e sensibilização.

Como estes trabalhos jornalísticos que nos despertam e inquietam, nomeadamente ao nível ambiental, chamando a atenção para o que se passa, neste caso, com particular incidência no continente europeu, que “enfrenta secas mais frequentes e ondas de calor intensificadas pelas alterações climáticas”. Na paisagem do território português, e considerando as opiniões de especialistas sobre a necessidade de agricultura regenerativa, talvez fosse de refletir sobre que tipo de políticas públicas têm sido implementadas, com vista a valorizar os solos, na sua “capacidade de armazenar carbono, infiltrar água e aumentar a resiliência das explorações às secas”. Ainda que a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, garanta que Portugal encara a seca e a resiliência dos solos como “uma prioridade”, e que a resposta tem que ser “integrada”, surpreendentemente não são feitas quaisquer referências aos projetos de cultivo intensivo, a exemplo do olival ou do abacate na última década, agravados aliás pelas consequências na perda da biodiversidade.

Estando em curso a revisão do plano de combate à desertificação em Portugal, ironicamente, a paisagem foi-se moldando à realidade que se foi impondo através do monocultivo que, ao nível florestal, tem predominância do eucalipto, partilhando território com outras plantações intensivas, a que se juntam agora em força, na “beleza” paisagística rural, a implantação de painéis solares que deixarão gigantescas áreas de terra definitivamente votadas ao abandono. Projetos solares não menos intensivos, restando a esperança de virem a vingar projetos piloto que permitam colocar tais equipamentos de captação de energia ao serviço da agricultura.

Sem pôr em causa o objetivo fundamental e estratégico de mais autonomia energética, nomeadamente através do recurso ao solar, que assume particular relevo ambiental, as contradições permitidas pelas políticas que abrem portas a tais modelos de exploração intensiva dos solos, são cada vez mais evidentes, considerando que, em termos globais, como se lê na noticia aqui referida, “1,5 mil milhões de hectares de solo devem ser restaurados até 2030, de acordo com um dos objetivos da COP17”, acrescentando a ONU que, “900 mil milhões de dólares são as perdas anuais provocadas pelo facto de 40% das terras do planeta estarem degradadas”. Assim o estado de degradação e desertificação de significativa parte dos solos, por cá e globalmente, mereçam a devida atenção e consequente ação. 

José Carlos Lopes

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