O feminismo ensinou-nos que aquilo que parecia privado era muitas vezes político.
Parabéns UMAR! Celebrar os 50 anos da UMAR é celebrar meio século de luta pelos direitos das mulheres, pela igualdade e contra todas as formas de opressão e discriminação. É também reconhecer a importância de uma organização que, ao longo de décadas, esteve presente nas lutas concretas das mulheres e na transformação da sociedade portuguesa.
Esta celebração é uma oportunidade para olhar para os desafios do presente. A luta feminista está ligada às condições económicas, sociais e ambientais em que vivem as pessoas. A desigualdade entre mulheres e homens não existe num vazio: cruza-se com a precariedade laboral, os baixos salários, a pobreza, a crise da habitação, a insuficiência dos serviços públicos, a divisão desigual do trabalho doméstico e dos cuidados e a crescente mercantilização de dimensões fundamentais da vida.
É neste cruzamento que o ecofeminismo encontra uma ligação profunda com o ecossocialismo. Ambos partem de uma crítica a uma sociedade organizada em torno da exploração do trabalho, dos corpos, dos territórios e da natureza. O mesmo modelo económico que transforma a natureza em recurso a apropriar e explorar tende também a desvalorizar e invisibilizar o trabalho de reprodução social, de cuidado e de manutenção da vida, historicamente atribuído sobretudo às mulheres.
A crise ecológica torna esta relação ainda mais evidente. As alterações climáticas, a destruição dos ecossistemas, a escassez de água, os incêndios, a poluição e os novos extrativismos não atingem todas as pessoas da mesma forma. As populações mais vulneráveis são frequentemente as primeiras a sofrer as consequências, e entre elas encontram-se muitas mulheres, particularmente aquelas que acumulam trabalho remunerado, trabalho doméstico e responsabilidades de cuidado.
Por isso, não haverá transição ecológica justa se esta não for também uma transformação das relações sociais e das relações de género. Uma transição que apenas substitua combustíveis fósseis por novas formas de exploração dos territórios e dos recursos naturais continuará a reproduzir desigualdades. Da mesma forma, uma política de igualdade que não questione as estruturas económicas que produzem precariedade, pobreza e dependência ficará inevitavelmente limitada.
O ecossocialismo incorpora plenamente a dimensão feminista. Isso significa defender serviços públicos fortes, saúde e educação universais, habitação acessível, emprego com direitos, salários dignos, proteção social e uma verdadeira política pública de cuidados. Significa reconhecer que cuidar de crianças, idosos, pessoas dependentes e comunidades é trabalho socialmente necessário e deve deixar de ser tratado como uma responsabilidade privada e predominantemente feminina.
Significa também defender o direito das mulheres a decidir sobre as suas próprias vidas, os seus corpos e os seus projetos de vida, combater todas as formas de violência e garantir igualdade efetiva na participação económica, social, cultural e política.
Mas há ainda uma dimensão política essencial. O feminismo ensinou-nos que aquilo que parecia privado era muitas vezes político. O ecossocialismo deve retirar daí uma consequência semelhante: as decisões sobre a economia, a energia, o território, os recursos naturais, a habitação ou a organização do trabalho não podem continuar reservadas a minorias económicas e tecnocráticas. Também aqui aquilo que é apresentado como inevitável é, na realidade, resultado de escolhas políticas.
É por isso que o ecossocialismo que queremos construir deve ser feminista, democrático, plural e construído a partir da base. Não basta defender a participação popular em abstrato; é necessário distribuir efetivamente o poder, reconhecer diferentes experiências e saberes e garantir que aqueles que são normalmente afastados dos centros de decisão tenham voz e capacidade de intervenção.
Os 50 anos da UMAR recordam-nos que nenhuma conquista social foi oferecida de forma espontânea pelo poder. Direitos que hoje consideramos fundamentais resultaram de organização, resistência, solidariedade e luta coletiva.
Essa é talvez uma das principais lições que podemos retirar desta história: a transformação social acontece quando as pessoas deixam de aceitar como natural aquilo que lhes é apresentado como inevitável e se organizam para mudar a realidade.
Num tempo marcado pela crise ecológica, pela desigualdade e pelo avanço de novas formas de exploração e dominação, precisamos dessa mesma capacidade de organização e de esperança.
Ecossocialismo e feminismo encontram-se, assim, na defesa daquilo que deve estar no centro de qualquer projeto emancipatório: a vida, o cuidado, a dignidade, a igualdade, a liberdade e a capacidade das pessoas decidirem coletivamente sobre o seu futuro.
Celebrar os 50 anos da UMAR é olhar para o caminho percorrido. Mas é também afirmar que a luta continua.
A Direção da Rede Ecossocialista
11.set.20126

