por Pedro Soares
Sempre que surge uma nova força política, sobretudo à esquerda, repetem-se as acusações de «divisão», «fragmentação», «dispersão de votos» ou «não vai servir para nada». Foi assim com o Bloco de Esquerda e, mais tarde, com o Livre. Já antes tinha sido com as candidaturas presidenciais de Otelo Saraiva de Carvalho ou de Maria de Lourdes Pintasilgo. Estas reações são compreensíveis em quem vê ameaçada uma posição instalada, mas ignora as razões que levam novos protagonistas e projetos a entrar diretamente no debate político com voz própria.
Os novos partidos e movimentos nascem porque as respostas existentes se tornaram insuficientes, desadequadas ou erradas. Longe de ser um problema, a sua emergência é uma oportunidade para mobilizar novas pessoas, resgatar quem se afastou da participação cívica, inovar nas ideias e nas práticas, e alargar o raio de intervenção da esquerda. O quadro político internacional e nacional mudou. O tecnofascismo avança e impõe-se. As forças neoliberais dominantes procuram responder à crise aprofundando as mesmas lógicas que a provocaram: concentração da riqueza, privatização dos serviços públicos, financeirização da economia, exploração intensiva dos recursos naturais, precarização do trabalho, militarização e subordinação das decisões políticas aos interesses dos grandes grupos económicos e das big techs. O combate é duro e precisa de novas forças e novas ideias. Não podemos ficar na bancada.
Não se deve confundir pluralidade com sectarismo. A unidade da esquerda não se constrói pela exigência do silêncio ou pela aceitação acrítica das estratégias dos partidos tradicionais — até porque os resultados eleitorais têm demonstrado o esgotamento desses modelos. A verdadeira convergência faz-se nas lutas, na cooperação e na unidade da ação, preservando a diversidade de perspetivas. Infelizmente, não foi isso que se assistiu nas últimas eleições presidenciais, onde a fragmentação de candidaturas à esquerda resultou num desfecho desanimador. Perdeu-se aí uma excelente oportunidade para demonstrar que a pluralidade sabe agir em unidade.
Para a corrente ecossocialista, o essencial não é a paternidade das ideias, mas sim a capacidade de influenciar os programas, as prioridades e a prática política onde quer que haja espaço para intervir. Uma mudança estrutural, que será revolucionária, exige uma transformação das relações sociais que só uma ampla confluência de forças pode alcançar. Uma transição ecológica que se limite a substituir combustíveis fósseis por novas formas de exploração dos territórios e dos recursos naturais continuará a reproduzir desigualdades. Da mesma forma, uma política que se reivindique de esquerda ou até socialista, mas que não questione as estruturas económicas que produzem a precariedade e a pobreza, estará sempre condenada à limitação e à reprodução do status quo.
O aparecimento de novas forças não é um mero problema de aritmética eleitoral. É o sintoma de insuficiências profundas e, simultaneamente, uma possibilidade de renovação. O afastamento de vastos setores populares deve-se a erros claros de algumas esquerdas: a perda de autonomia estratégica face ao centro-esquerda, a domesticação institucional em nome de alianças de conveniência, o abandono da centralidade da classe em favor de uma fragmentação identitária, o taticismo inconsequente e a falta de coerência democrática interna.
A direita compreendeu, em prejuízo da esquerda, que o aparecimento de novos partidos não significava necessariamente o enfraquecimento do seu campo. Pelo contrário, aproveitou o espaço aberto pelo descontentamento e utilizou essa diversificação para se expandir e afirmar globalmente, constituindo a maioria parlamentar que hoje enfrentamos. É urgente encontrar uma saída para o beco em que a esquerda se meteu. O objetivo não pode ser a ansiosa autopreservação das estruturas partidárias existentes, mas sim a construção de uma força social e política com a participação de todos, capaz de subverter as relações económicas e ambientais que sustentam a injustiça. Bem-vindo quem vem nesse sentido. O desafio atual da corrente ecossocialista é o de contribuir para uma esquerda ampla, plural e renovada, convicta de que, para transformar a sociedade, todos os contributos são decisivos.

