por José Carlos Lopes
A indignação e a revolta popular contra governos PT, movimento do qual a direita e extrema-direita se viria a apropriar, desfraldando de forma populista a bandeira contra a corrupção, acabaria por levar Jair Bolsonaro a presidente em 2018 (atualmente preso por tentativa de golpe de Estado, após a derrota infringida por Lula em 2022). O alvo foi o então ex-presidente Luís Inácio Lula, preso entre abril de 2018 e novembro de 2019, na sequência da Operação Lava Jato, em que o Juiz Sérgio Moro condenou Lula a 12 anos de prisão, tendo posteriormente o Supremo Tribunal Federal (STF) reduzido a pena para 8 anos e 10 meses, enquanto repetidamente rejeitava os sucessivos Habeas Corpus apresentados pela defesa. Lula viria a conquistar a justa liberdade, a 8/11/2019, e a anulação pelo STF da acusação de corrupção como corolário da persistente luta democrática e jurídica, em que foi questionada a imparcialidade de Sérgio Moro.
Na sequência da decisão do STF de anulação das condenações de Lula, a 8 de março de 2021, e posteriormente arquivado o caso do “Triplex” do Guarujá, o Comité de Direitos Humanos da ONU publicou, em 28/04/2022, a conclusão de uma análise na qual apontou que houve parcialidade por parte de Sérgio Moro no julgamento dos processos contra Lula da Silva.
Agora, na véspera das eleições presidenciais no Brasil (4 de Outubro), que credibilidade podem ter sondagens que colocam o candidato dos escândalos de corrupção, Flávio Bolsonaro, em pé de igualdade, em peso eleitoral, com o candidato livre judicialmente? Lula destaca-se aos olhos do mundo, como um polo aglutinador da vontade de um povo multicultural, que assume com entusiasmo e alegria a reeleição do presidente Lula, através de uma onda de adesão indescritível, nos vários Estados brasileiros.
Tais estudos de opinião, que fabricam um empate artificial para forçar uma segunda volta a 25 de outubro, é mesmo incoerente com as campanhas contra a corrupção que ao longo da segunda década do ano 2000, originaram a ocupação das ruas no Brasil, que viriam a esmorecer com Bolsonaro e as suas políticas revanchistas. Só podem pretender influenciar e promover um candidato, há muito condicionado pela sua campanha que só pode resultar no sacrifício do povo brasileiro em favor dos interesses de Trump, a exemplo do agravamento das tarifas, ou da entrega de recursos estratégicos aos EUA. O curriculum do candidato presidencial bolsonarista, está “enriquecido” com o escândalo do Banco Master e a corrupção em que acaba envolvido. Um caso que chega a ser considerado o maior escândalo do setor bancário na história recente do Brasil.
Só mesmo cegueira fundamentalista e alienação negacionista, como sementes de ódio da extrema-direita, podem branquear tais escândalos de corrupção que ensombram esta família, cujas investigações do STF envolvem o candidato Flávio Bolsonaro, ainda que alguma comunicação social, mesmo com toda a polémica que vem deixando vários setores da sociedade brasileira desiludidos e descrentes com tal candidato, ainda transforme a corrida ao Palácio do Planalto como uma disputa renhida, promovendo até ironicamente uma vitória da corrupção bolsonarista, numa eventual segunda volta.
O povo brasileiro tem memória e dará certamente a justa resposta nas urnas já no dia 4 de outubro, à extrema-direita e a qualquer interferência nas eleições, incluindo, vinda do vizinho Trump. Porque, como se resume na mensagem de Lula: “É uma escolha sobre o futuro do Brasil. Democracia ou barbárie. Inclusão social ou abandono. Preservação ambiental ou desmatamento”.
Caminhada que vem à memória
As eleições presidenciais no Brasil, colocam frente a frente o candidato Flávio Bolsonaro e o candidato Lula da Silva que une a esquerda nesta fase da difícil luta pela defesa da liberdade e democracia, assim como a defesa da independência do país face aos interesses capitalistas e imperialistas no domínio geoestratégico, que consideram a América Latina, como é assumido pelos EUA, como seu quintal. Tal é o apetite pelo recursos naturais em terras brasileiras, desde já “disponibilizados” pelo candidato que une a extrema-direita fiel ao bolsonarismo e mantém milhares de famílias mais pobres, sempre deixadas à margem da distribuição das riquezas do país. Propósitos de dependência, nomeadamente dos EUA, que o candidato bolsonarista, sem qualquer ambiguidade ou dignidade, se propõe oferecer como contrapartida ao apoio de Donald Trump e seus aliados de campanhas internacionais que ameaçam a componente social dos Estados, a democracia e as liberdades.
Estes são momentos cruciais, que obrigam a refletir sobre caminhadas recentes (2013) na luta do povo brasileiro, trazendo à memória acontecimentos políticos que, tendo sido desencadeados por forças progressistas e de esquerda, mobilizando a justa revolta e descontentamento popular contra o agravamento das condições de vida da população, na então governação PT de Dilma Rousseff, acabaram abrindo campo à reconfiguração da direita e extrema-direita, que viria a influenciar e instigar o ódio entre o povo, em nome de campanhas populistas contra a corrupção, que naturalmente, branquearam a sua própria corrupção, que hoje está escancarada judicialmente.
Populismo que simultaneamente fez retroceder o movimento popular nos seus propósitos progressistas que genuinamente tinham motivado e mobilizado os brasileiros, que, em muitos casos, vítimas fáceis das armadilhas bolsonaristas, podem vir a engrossar a indiferença ao ato eleitoral. Uma oportunidade que pode ser dada como perdida, para contrariar pretensões fascizantes no país, em que urgem exemplos como o da mobilização popular em torno de Lula. Porque, recorrendo a palavras que nos deixou Pepe Mujica, “Ser de esquerda é ter uma posição filosófica perante a vida onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo”.
Nesta decisiva caminhada, que ficaria significativamente assinalada na recente história da luta popular no Brasil. Naquele ano de 2013, a revolta e indignação do povo brasileiro invadiu as cidades do país, em protesto contra o agravamento das condições de vida da população: saúde – educação – habitação e transportes. Vindo a ser despoletadas as célebres manifestações realizadas nas ruas da capital Paulista a 6/06/2013, pelo então Movimento Passe Livre contra o aumento das tarifas, cuja resposta do poder, foi a forte repressão policial, que só contribuiu para o escalar da reação popular, e de imediato, levar as ruas da capital Paulista, a serem tomadas por dezenas de milhares de pessoas, que se batiam por justiça e direitos fundamentais, para a dignificação das suas vidas difíceis.
Reivindicações que a direita e a extrema-direita não viriam a garantir no governo, como se veio a constatar no mandato de Jair Bolsonato (2018 – 2022), mais vocacionado nos ataques homofóbicos e misóginos. Assim se pode concluir numa breve análise da imprensa da época que resistiu às campanhas insidiosas e à missão da falsa informação das redes sociais bolsonaristas ao serviço da propaganda autocrata, negacionista, racista e xenófoba, marcada pelo retrocesso civilizacional, limitando a democracia e liberdade.
O movimento de grandes protestos contra Dilma até à sua destituição pelo impeachment em 2016, viria a ser apropriado, mesmo na sua vertente mais radical de luta da esquerda, pela direita e extrema-direita, que se aproveitou da indignação contra as políticas governamentais do PT e as crises económicas que se refletiam severamente na vida dos brasileiros. Momentos de revolta, que foram campo aberto, para surgir Bolsonaro como o “Messias”, no combate à corrupção, tendo como alvo o ex-presidente Luís Inácio Lula, através da operação Lava Jato, liderada pelo Juiz Sérgio Mouro, que inicialmente condenou Lula a 12 anos de prisão, vindo a ser “premiado” por Bolsonaro a Ministro da Justiça, até se demarcar e demitir do governo.
Contrariamente a Flávio Bolsonaro em 2026, Lula entregou-se à justiça em 2018
Condenado no âmbito do processo Lava Jato dirigido pelo Juiz Sérgio Mouro, Lula da Silva, que tinha declarado “quanto mais eles me atacam, mais cresce minha relação com o povo brasileiro”, entregou-se à policia federal no célebre dia 7/04/2018, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, dando assim inicio a um duro processo de luta judicial, num ambiente de ódio, intolerância e negacionismo, que seria prosseguido durante o governo de Michel Temer (2016 a 2018), envolvido em escândalos de corrupção e naturalmente ao serviço do capital, começando a flexibilizar as relações de trabalho, mesmo sendo contestada a sua legitimidade.
Foi um tempo de antecâmara para o surgimento de Jair Bolsonaro, após o derrube do governo de Dilma Rousseff, através de impeachment em 2016. Cenário político de grande instabilidade, que alimentou o descrédito entre o povo e sustentou as campanhas pré-eleitorais para o aparecimento e eleição de Bolsonaro, que segundo especialistas, “criou a maior rede de nepotismo de uma família política”, como os mais recentes escândalos de corrupção (Banco Master), em que se destacam nomes como Flávio Bolsonaro, que não abdica da sua candidatura presidencial para servir interesses alheios ao Brasil e ao seu povo.


