por Ricardo Salabert
Recentemente, perante as apresentações públicas de dois novos partidos à esquerda, surgiu a inevitável “não são já partidos de esquerda que cheguem?”. É uma pergunta que parece razoável, mas que parte de uma premissa errada.
Os partidos à esquerda do PS têm perdido influência e representatividade nas autarquias e no parlamento e não apenas pela disputa de eleitorado. O problema da esquerda portuguesa não é haver “demasiada esquerda”, é haver demasiadas pessoas, organizações e lutas de esquerda que ainda não encontraram uma forma de se reforçarem mutuamente. Enquanto isso, do outro lado, a extrema-direita cresce. Nas últimas legislativas, a extrema-direita parlamentar elegeu 60 deputados e proclamou-se como segunda força parlamentar. Ainda assim, foram anunciados novos projetos ainda mais à direita, procurando disputar diferentes segmentos desse espaço político. A direita radical não parece particularmente preocupada com a possibilidade de “dividir o seu eleitorado”. Pelo contrário, multiplica-se, radicaliza-se e procura chegar a públicos diferentes..
Há uma teoria que defende existir uma transformação profunda da extrema-direita contemporânea. Em termos simples, uma parte da extrema-direita contemporânea deixou de imaginar a política como construção de um futuro diferente e passou a preparar-se para um mundo em colapso. É uma coligação improvável de setores religiosos “conservadores”, etnonacionalistas e gurus da tecnologia, com visões diferentes sobre quase tudo, mas com terreno comum na rejeição de um futuro assente em serviços públicos, solidariedade social e numa economia ao serviço da democracia. Uns querem acelerar o colapso da democracia, outros querem lucrar com ele. Uns querem sobreviver-lhe protegidos por muros, outros querem simplesmente garantir que, quando a sociedade se fragmentar, terão os seus aliados no lado de dentro. Não precisam concordar em tudo, apenas precisam reconhecer que podem ser úteis uns aos outros. Esta sua capacidade de ocupar diferentes espaços sem exigir uniformidade absoluta, é talvez uma das características mais perigosas da nova extrema-direita. Há uma extrema-direita institucional, uma digital, uma religiosa, uma económica e uma identitária. Há uma extrema-direita que fala para os trabalhadores precarizados e outra que fala para empresários descontentes com impostos e regulação. Há uma extrema-direita que explora o ressentimento contra a imigração e outra que explora o medo da crise. Há uma extrema-direita que ataca os sindicatos e outra que se apresenta como defensora dos trabalhadores. Não é tudo a mesma coisa e não deve ser tratado como tal, contudo é urgente entender que estas correntes podem convergir num mesmo movimento histórico de destruição das condições sociais, políticas e materiais que tornam possível uma democracia
Em Portugal, a inconsequência política da extrema-direita parlamentar também deve ser compreendida neste contexto. É fácil olhar para determinadas propostas impossíveis, para as sucessivas contradições, ou para iniciativas destinadas sobretudo à provocação e concluir que estamos perante uma força politicamente incompetente. Isto leva à pergunta essencial: “o que produz politicamente essa inconsequência?”
Quando um partido consegue transformar cada debate numa guerra cultural, deslocar o centro do debate público e convencer milhares de pessoas que as instituições são todas corruptas, incompetentes ou ilegítimas, está a produzir algo, mesmo quando não consegue resolver os problemas que promete combater. Aliás, a incapacidade de governar pode ser, paradoxalmente, compatível com o objetivo de deslegitimar as instituições, e uma força política que vive da ideia que “nada funciona” não precisa necessariamente demonstrar que consegue fazer com que tudo funcione, apenas precisa que a frustração continue. É por isso que o surgimento de novas forças políticas não deve ser analisado apenas como uma disputa eleitoral direta. É uma tentativa de ocupar novos territórios sociais e culturais. É precisamente por isso que a resposta da esquerda não pode ser dizer “oh, não, mais um partido de esquerda”, quando precisamos de uma esquerda sindicalista mais forte; de uma esquerda ecologista capaz de falar para além dos círculos habituais; de uma esquerda anticapitalista capaz de disputar a organização dos trabalhadores; de uma esquerda popular, capaz de voltar a entrar nos bairros, nas periferias e nos territórios onde o Estado social recuou e falhou.
Precisamos de uma esquerda capaz de falar com quem trabalha e não consegue pagar uma casa, com quem tem um (ou dois) salário(s) e continua pobre; com quem é jovem e não consegue imaginar uma vida independente; com quem vive no interior e sente que todas as decisões são tomadas longe; com quem chegou a Portugal para trabalhar e é tratado como mão-de-obra descartável; com quem perdeu a confiança nos partidos tradicionais sem ter necessariamente perdido a vontade de transformar a sociedade. Precisamos de mais instrumentos políticos para chegar a mais pessoas. Precisamos de mais esquerda, e isso significa aceitar algo que a cultura partidária tradicional tem dificuldade em aceitar, a noção de que um novo partido à esquerda não tem necessariamente de retirar força aos partidos que já existem, desde que não nasça para destruir os outros, que não confunda identidade com exclusividade e que compreenda que uma sociedade complexa não precisa de uma única organização para representar todas as suas dimensões. O problema apenas surge quando transformamos a pluralidade em competição permanente, e é aí onde a esquerda tem perdido. Enquanto discutimos quem tem legitimidade para falar em nome da Esquerda, a extrema-direita fala diretamente para diferentes sectores da sociedade; enquanto discutimos quem é suficientemente puro, eles constroem alianças improváveis; enquanto discutimos quem tem o programa mais correcto, outros constroem uma narrativa simples sobre inimigos, medo e sobrevivência; enquanto nos perguntamos se um novo partido vai tirar votos a outro, eles perguntam que eleitores ainda não conseguiram alcançar.
Uma nova esquerda pode ter várias organizações, pode ter diferentes tradições, pode ter diferentes programas, pode ter diferentes linguagens, pode até ter diferentes estratégias, mas deve reconhecer algumas fronteiras comuns. Uma nova esquerda não pode aceitar o racismo como instrumento político, nem aceitar a destruição de direitos laborais, ou a privatização de serviços públicos essenciais; não pode aceitar que a emergência climática seja transformada num mercado para enriquecer uns quantos, nem aceitar que a habitação seja tratada como ativo financeiro em vez de ser reconhecida como um direito fundamental, nem tão pouco aceitar que trabalhadores migrantes sejam utilizados como bodes expiatórios para problemas criados por décadas de políticas económicas desastrosas. Sobretudo, não pode aceitar a ideia de que o futuro será uma guerra de todos contra todos. A extrema-direita pode multiplicar-se para preparar o colapso, a Esquerda deve multiplicar-se para impedir que ele aconteça. Eles podem falar com diferentes franjas da sociedade para as juntar em torno do medo, nós devemos falar com diferentes franjas da sociedade para as juntar em torno do bem comum. Eles podem ter vários partidos para disputar o mesmo espaço de ressentimento, nós devemos ter vários partidos para disputar diferentes espaços de emancipação. Depois encontramo-nos nas lutas, nos sindicatos, nos bairros, nas escolas, nas ruas, nas empresas, nas autarquias, no parlamento, nos movimentos sociais. Não precisamos construir uma esquerda em que todos pensem da mesma maneira, precisamos construir uma esquerda onde ninguém considere que a vitória da “nossa” esquerda é a derrota de uma “outra” esquerda.
Um novo partido à esquerda não deve nascer para provar que os outros estão errados, deve nascer porque há pessoas que ainda não estão organizadas; porque há lutas que ainda não têm representação; porque há setores sociais que as atuais forças de esquerda não conseguem alcançar; porque há ideias que precisam de ganhar força; porque há uma parte da sociedade que não se reconhece nas estruturas existentes e que pode ser mobilizada para um projecto de transformação. Se conseguir fazer isso, não estará a dividir a esquerda, estará a alargá-la.
À esquerda, não devemos ter medo da nossa diversidade, devemos apenas ter medo de uma eventual incapacidade de cooperar, porque o desafio que temos pela frente não é pequeno. A crise climática não acabou, nem a crise da habitação ou a precariedade, nem as desigualdades ou o poder económico de uma minoria, nem a extrema-direita vai desaparecer por lhe explicarmos que as suas propostas são incoerentes. A extrema-direita continuará a crescer enquanto conseguir transformar insegurança em ressentimento e ressentimento em organização política. O nosso caminho é o contrário: transformar insegurança em solidariedade, solidariedade em organização e organização em poder político. Mais organizações, mais movimentos, mais capacidade de intervenção e mais gente politicamente organizada.
Uma esquerda que se multiplica sem se dividir; uma esquerda que se diferencia sem se destruir; uma esquerda que disputa sem deixar de cooperar; uma esquerda tão plural quanto a sociedade, mas unida no que lhe é comum, porque, perante aqueles que já estão a preparar o colapso das instituições, não temos o direito de desperdiçar forças a lutar uns contra os outros.


