por Manuel Carlos Silva
Contrariando a maior parte das sondagens, os resultados das eleições do passado domingo no Brasil, para além de reforço da extrema-direita em governadores, senadores/as, deputados/as eleitos/as sobretudo nos Estados do Oeste, Sul e Sudeste do país, evidenciam que Flávio Bolsonaro soma na primeira volta 56.104.503 votos, ou seja, mais 2.224.965 votos sobre a votação em Lula da Silva com 53.879.538 votos (47,03% versus 45,16%).
Considerando a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, este tem um passado de ligação a milícias, foi operador de ‘rachadinhas’ apropriando-se de dinheiros de grande parte de salários de contratos fictícios de funcionários-fantasma na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, adquiriu um cofre no Banco do Brasil e criou uma loja de chocolates de fachada para lavagem de dinheiro, comprou, juntamente com familiares do clã Bolsonaro, mais de 100 imóveis dos quais 50 com dinheiro vivo e, em particular, uma mansão de 6 milhões de reais – para o que contou com a proteção do pai-Presidente e de Alexandre Ramagem como responsável da Agência Brasileira de Informação (ABIN) para escapar a processos judiciais. Mais, desde Agosto de 2025, pôde contar com a seletividade do juiz André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) em ocultar ‘doações’ entregues pelo banqueiro corruptor Daniel Vorcaro do Banco Master a figuras do bolsonarismo, nomeadamente 61 milhões de reais (12,3 milhões de dólares) ao próprio Flávio Bolsonaro, alegadamente para um filme designado de Dark Horse relativo à figura do seu pai Jair Bolsonaro, para além de inúmeras menções no telemóvel de Vorcaro sobre viagens do candidato no jato privado do banqueiro e ‘farras íntimas’!
Ficamos certamente esclarecidos quando, a par deste especial cadastro biográfico, não se vislumbra qualquer melhoria socio-económica para a grande parte do povo brasileiro; pelo contrário, subsiste um programa de privatizações de empresas públicas, de entrega de terras raras e da própria soberania brasileira aos Estados Unidos da América (EUA) de Trump e, em particular, o eventual impeachment de juízes do Supremo Tribunal Federal no Senado e decreto de amnistia do pai condenado a 27 anos de prisão, atualmente domiciliária, por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado no Brasil desde 2021, bem como o assalto vandálico ao Palácio do Planalto, ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal a 8 de Janeiro de 2023. Além disso, é de referir a cumplicidade de Flávio Bolsonaro com a política do pai Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil entre 2018 e 2022, com todos os retrocessos socio-políticos para o país e o povo, mas em favor da burguesia mais reacionária: uso de orçamento secreto e emendas parlamentares para interesses privados; privatização da Electrobras, invasões de terras indígenas e usurpações de terras públicas, madeiras e minérios; devastação ambiental de 2 milhões de hectares com desmatamentos e queimadas predatórias na Amazónia, na Mata Atlântica e no Pantanal; aumento de 4,5 milhões de desempregados na Petrobras, na Odebrecht e noutras empresas; perda de poder de compra, aumento dos preços de bens básicos, conjunto de 33 milhões de pobres, dos quais 20 milhões de desempregados e desencorajados; cortes no Serviço Único de Saúde (SUS), na Educação, na Investigação e na Cultura, perseguição a Reitores democratas; assassinatos de líderes populares por ‘jagunços’ a mando de fazendeiros e garimpeiros sem qualquer punição nem sequer processo judicial; e, por fim, mas não menos importante, a morte desnecessária de centenas de milhares de brasileiros/as por negacionismo da ciência, publicidade enganosa sobre cloroquina para a Covid19 e consciente rejeição no acesso atempado a vacinas.
Em contrapartida, Lula, originário de família pobre, dirigente sindical no ABC paulista desde finais dos anos 1970, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato presidencial vencido nos anos 1980-90 mas vencedor em 2002 e 2006 – seguido das vitórias do PT com Dilma Roussef em 2010 e 2014, sendo esta vítima de destituição (impeachment) por golpe em 2016 – viria a ser objeto da operação Lava Jato, uma armadilha judicial aliciada pela CIA e conduzida pela quadrilha composta pelo Juiz Moro e pelo Procurador Dellagnol. Esta operação resultaria no fraudulento processo lawfare para inviabilizar a candidatura de Lula em 2018, aliás precedida duma hedionda prisão com espetáculo mediático e condenação sem provas, vindo mais tarde a ser absolvido deste e doutros processos pelo Supremo Tribunal de Justiça após 580 dias de prisão.
Os governos de Lula da Silva e Dilma Roussef entre 2003 e 2016 e, de novo, neste último mandato de Lula (2023-2026) traduziram-se em diversas políticas públicas: melhor infraestrutura e saneamento; criação de mais de 30 milhões de empregos; aumentos sucessivos do salário mínimo; reforço de direitos laborais e previdenciários; acesso à alimentação básica por meio do Bolsa-Família; retirada de mais de 30 milhões de brasileiros da pobreza extrema; melhoria do SUS e subsidiação do sistema de habitação para famílias carenciadas através do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’; investimento na formação, nomeadamente no Ensino Superior, passando de 3 para 8 milhões de diplomados; reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, afro-descendentes e das comunidades tradicionais, defesa do meio ambiente; e, na política externa, diversificação de parceiros comerciais, nomeadamente com os BRICS; relativa diminuição de dependência e afirmação de soberania face aos EUA, designadamente à doutrina Monroe e ao gangsterismo de Trump na América Latina e no Mundo; solidariedade com países e povos agredidos como Cuba, Venezuela, Irão e sobretudo Palestina, vítima de genocídio por Israel e EUA.
Perante uma sociedade perpassada de profundas desigualdades socio-espaciais (de classe, étnico-raciais e de género) e perante estes dois quadros traçados e respetivas biografias políticas antagónicas entre Flávio Bolsonaro e Lula da Silva, coloca-se a pertinente questão: como e porquê 58 milhões de brasileiros/as votaram Bolsonaro em 2018 depois de uma política mais favorável à população por parte do PT, de 58 milhões em 2022 mesmo após uma política bolsonarista anti-popular e uma necropolítica durante a pandemia da Covid19 e de novo 56 milhões em 2026? Como explicar o problema da discrepância entre as reais condições objetivas de vida degradadas das classes populares e a votação maciça não só das elites e de classes intermédias mas também de parte das classes populares pobres nomeadamente no Centro-Oeste, no Sul e Sudeste do Brasil? Como, apesar dos elevados custos de juros da dívida pública em torno dos 15%, dos boicotes por parte da maioria da direita e da extrema direita na Câmara dos Deputados e no Senado face aos projetos e propostas do Governo Lula da Silva, a bem sucedida redução da pobreza extrema, o crescimento da economia e as melhorias socio-económicas com aumento do emprego, do salário mínimo, da diminuição ou isenção de impostos para as classes trabalhadoras e proposta de redução de horário de trabalho não se traduziram num voto maioritário em Lula da Silva, mas, pelo contrário, em Flávio Bolsonaro que, além de aliado de milícias, corrupto e corruptor em negócios imobiliários e entreguista da soberania brasileira aos EUA, virá reproduzir as nefastas políticas bolsonaristas para o país e o povo mas favoráveis à burguesia rentista, compradore e financeira?
Tal não ocorreu porque o povo brasileiro possua um arquétipo essencialista de passividade ou de sentimento masoquista – pois há exemplos de movimento e luta contra ditadura e por direitos laborais e sociais – nem tão pouco por fruir, na generalidade, de uma vida folgada e satisfatória conducente à acomodação passiva, mas certamente porque pessoas trabalhadoras e pobres, ressentidas e desesperadas mas sem consciência da classe social a que objetivamente pertencem são manipuladas por narrativas dos media hegemónicos (Record, SBT, Band e Globo, corresponsáveis do velho ‘antipetismo’ e favoráveis a Flávio Bolsonaro), por fake news de redes sociais dominadas pelos algoritmos das Big-Techs sediadas nos EUA e sobretudo pelo controlo manipulativo e alienante, por parte de grande parte dos pastores evangélicos neopentecostais, sobre famílias pobres, residentes nas favelas das grandes metrópoles e nas pequenas cidades e aldeias do interior rural (cerca de 1/3 da população brasileira).
Dada a precariedade e dependência material destas populações, os pastores evangélicos dominam e capturam as suas vidas a nível não só espiritual como de sobrevivência existencial e, consequentemente, na orientação político-eleitoral. Se adicionarmos a crescente incorporação institucionalizada da vida político-partidária das esquerdas, nomeadamente do PT, e a perda de influência e/ou ausência de trabalho de base por parte de sindicatos e movimentos sociais nos locais de trabalho, de habitação e na rua, uma parte considerável da população trabalhadora e pobre, sentindo-se desamparada, socorre-se individualmente de caciques, patronos e pastores para não piorar a situação, sobreviver e não morrer de fome em nome da segurança socio-económica mínima (safety first). Tal converge com a tese sustentada por teóricos da ‘economia moral’ (Thompson, Wolf e Scott), enquanto conjunto de experiências e sentimentos de injustiça enraizados nas suas condições materiais de existência, sem organização e apoio concreto de forças de esquerda e do próprio Estado Social e, ainda por cima, rotulados de ‘gado’ ou, pior, de ‘fascistas’ por certos urbanitas ditos de esquerda. Que fazer no futuro, nomeadamente nestas três semanas que restam até à segunda volta/turno?
Dado que está em causa o dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie, há que redobrar esforços num consistente trabalho de base junto das pessoas, esclarecendo-as do dilema e das consequências nefastas da eleição de Flávio Bolsonaro para as suas vidas: destruição ou perda de direitos sociais e laborais, a começar pela alteração da Constituição de 1988, perda de soberania e subjugação face aos EUA de Trump, maior insegurança face ao reforço de milícias e agravamento do crime organizado, total captura das instituições estatais para interesses privados. Há que aproximar-se com humildade e empatia junto dos 21,08% (33 milhões) de abstencionistas e inclusive junto de votantes bolsonaristas pobres manipulados pelos media hegemónicos, pelas redes sociais e sobretudo pelos pastores evangélicos neopentecostais, em que as Igrejas evangélicas neopentecostais instrumentalizam a religião no controlo das populações em favor do bolsonarismo.
De facto, a situação é deveras preocupante, mais ainda com parte considerável de votos dos restantes candidatos minoritários a ir desembocar no candidato bolsonarista! Importará deixar de chamar ‘gado’ a votantes pobres manipulados, abeirando-se dessas pessoas com compreensão e respeito e explicar-lhe que estão votando nos seus inimigos de classe! Apesar do cenário complicado, se cada um/a, para além do uso das redes sociais, se envolver de modo comprometido na rua, nos locais de trabalho e de residência, poder-se-á ainda virar o jogo e ter de novo Lula a Presidente!


