O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

O INCERTO PARTO DO MUNDO MULTIPOLAR

por Viriato Soromenho-Marques (1)


Ainda é cedo para falarmos numa nova sociedade internacional. É verdade que “A Decadência do Ocidente” (Der Untergang des Abendlandes) foi anunciada e explicitada como um longo processo histórico, nos anos em que Oswald Spengler publicou a sua obra maior (1918-1922) (2). Muito mais recentemente, Emmanuel Todd, um dos mais proféticos sociólogos do último meio-século, revelou, através de uma poderosa e essencial lista de indicadores, organizados numa original grelha de leitura, aquilo que ele intitulou como a “A Derrota do Ocidente (3).

Sabemos que a China é hoje o líder mundial em 57 das 64 áreas das tecnociências de ponta, ou que os BRICS ultrapassaram, desde 2018, o PIB agregado do G74. Mas isso não basta para afirmar a inevitabilidade de a hegemonia ocidental ser substituída por um sistema multipolar centrado na China, em articulação com a Rússia, o Irão, o Brasil, a Indonésia, e eventualmente a Índia, entre muitos outros países que estão em ascensão. O cisne negro do futuro das relações internacionais reside em dois enigmas que tendemos a descurar.

O primeiro enigma, já visível, mas ainda longe de ter atingido uma dimensão capaz de destruir o mundo como o conhecemos, é a marcha da crise global do ambiente e clima em direção a uma situação de colapso sem retorno. É praticamente certo que esse colapso vá conquistando cada vez mais regiões ao longo das próximas décadas, mas a capacidade humana para se evadir da realidade é tal que ainda hoje é possível ao presidente dos EUA recusar a própria veracidade existencial das alterações climáticas.

Contudo, o segundo enigma que contraria a possibilidade de transição para um novo modelo de sistema internacional é a radical mudança introduzida na natureza da guerra, desde 1945, pelas armas nucleares. Todas as transições, seja na política ou na biologia, são períodos delicados e perigosos. O Ocidente está condenado ao declínio, mas mantém intacta a possibilidade de não sair de cena sem usar todo o seu arsenal nuclear, o que seria suficiente para provocar um holocausto que anularia, talvez por séculos, a possibilidade de vida civilizada em grande parte do planeta. E esse vento terminal pode acontecer nos próximos meses ou nos próximos anos.

Uma espécie de véu de ignorância sobre o risco das armas nucleares parece estar presentar tanto no comportamento de Trump e de Netanyahu, ameaçando abertamente o seu uso contra o Irão, como na continuada e irresponsável escalada europeia na preparação de uma guerra direta contra a Rússia, recalcando a inevitabilidade de que que tal conflito nunca terminaria com a derrota da Rússia, mas sim com a imolação de todas as partes envolvidas numa guerra de extermínio mútuo, onde até os sobreviventes seriam vencidos.

Sem percebermos a história e as metamorfoses do atual “velho” sistema internacional, não poderemos compreender a viabilidade de um novo poder nascer, resolvendo esses dois enigmas fundamentais. Na minha leitura, podemos identificar entre 1945 e a atualidade três períodos e metamorfoses distintos nas relações internacionais. O primeiro decorreu entre 1945 e 1991; o segundo entre 1991 e 1999; e o terceiro iniciado em 1999, é aquele que se encontra hoje em agonia.

Primeiro período: O Consenso (1945-1991): A Organização das Nações Unidas não teria sido possível sem a iniciativa da liderança dos EUA sob F. D. Roosevelt. Todavia, não só os outros presidentes dos EUA lhe seguiram os passos, como o adversário global de Washington, a URSS, também considerou a ONU como o campo de batalha diplomático, que deveria evitar a queda no abismo de uma guerra de aniquilação mútua, entre as duas potências hegemónicas e seus respetivos blocos militares. O facto de a guerra-fria jamais ter atingido um ponto de não retorno, reside no facto de nenhuma das duas superpotências jamais ter considerado que a ONU deveria ser colocada de lado, mesmo quando perseguiram ações militares que por ela seriam condenáveis.

Um caso notável dessa cooperação entre inimigos foi o acordo entre Moscovo e Washington no jugular da agressão neocolonial coordenada pela França, Reino Unido e Israel contra o Egito após a nacionalização do Canal do Suez. Numa Assembleia-Geral extraordinária, a URSS apoiou a Resolução 997, de 2 de novembro de 1956, apresentada pelos EUA, que obrigou a um cessar-fogo imediato, bem como à retirada das forças de Telavive para as linhas do armistício de 1949 (5).

Segundo período: Tempo de colapso e incerteza (1991 e 1999): Em 17 de março de 1991 teve lugar o único referendo ocorrido na história da URSS. Apesar de 6 dos 15 Estados terem boicotado a eleição, a afluência às urnas correspondeu a 80% dos eleitores de toda a URSS (148,5 milhões de votos expressos) e a vitória pela permanência da União foi esmagadora (77,8% contra 22,2%). Mas, do mesmo modo como durante a existência da URSS a vontade livremente expressa do povo foi reprimida, também no seu crepúsculo, a forte manifestação de apoio à continuação da URSS foi espezinhada em favor da tóxica combinação dos nacionalismos, da violência e do gangsterismo. A URSS entraria numa turbulenta dissolução, sem que os seus estilhaços causassem, contudo, danos no resto do mundo. Inicia-se uma década trágica para a Rússia e outros Estados da antiga URSS. Aumenta o banditismo, o alcoolismo, a esperança de vida cai 5 anos, as empresas públicas são capturadas por uma nova classe de oligarcas, com a ajuda de conselheiros ocidentais. A democracia confunde-se com anarquia.

Cai a ditadura do partido comunista, mas em seu lugar os povos da antiga União Soviética, em particular da Rússia, não conhecem o Estado de Direito, mas o “estado de natureza” de que trata Thomas Hobbes no seu Leviathan (1651): “a guerra de todos contra todos” (The war of all against all). A fragilidade da Rússia, governada por Boris Yeltsin, uma personalidade sem visão estratégica e paralisado muitas vezes pelo alcoolismo crónico, foi explorada pelos EUA e por muitos países europeus. Não só a OTAN concretizaria a sua expansão, com o primeiro ciclo de adesões a concretizar-se em 1999, como a Alemanha – apesar das hesitações de Helmut Kohl em hostilizar o país que abrira as portas da reunificação alemã – não deixaria de prosseguir uma agenda própria.

Foi Berlim quem deu o sinal para a fragmentação da Jugoslávia, logo em 1991, apoiando militarmente a secessão da Eslovénia e da Croácia, apesar da oposição dos restantes 11 países da UE. A Alemanha desenvolveria, igualmente uma política de expansão para Leste, fazendo coincidir o interesse dos EUA, na expansão da OTAN, com o seu interesse de conquista de novos mercados para a sua economia, através do crescimento da UE para Leste, fazendo cair, irremediavelmente, a ilusão de uma convergência federal do projeto de integração europeia.

Terceiro período: O império unipolar dita a lei e o castigo (1999…): Os 78 dias de bombardeamento de Belgrado (de 24 de março a 10 de junho de 1999), por uma OTAN atuando sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, marca a entrada definitiva no presente sistema internacional de um império perigosamente declinante, de que vivemos hoje a perigosa agonia (6). A ideia de que o fim da guerra-fria não resultara de uma notável e singular convergência entre blocos político-militares rivais – que concordaram em enveredar no caminho da diplomacia e da cooperação como alternativa à destruição mútua assegurada numa guerra nuclear -, mas antes de uma derrota da URSS pelos EUA, foi o mote para a tese bizarra de que o futuro pertenceria ao domínio unipolar dos EUA sobre o resto do mundo. Os europeus e outros aliados dos EUA preferem mascarar esta grosseira declaração de óbito do primado da ONU e do direito internacional, com a poética expressão “uma ordem mundial baseada em regras” (a rules-based world order). A diferença que existe entre esta conceção e a letra e o espírito da Carta das Nações Unidas, reside no facto de os EUA (e, quando estes consentem, também os seus vassalos) poderem violar as regras que
obrigam os outros a cumprir (7).

A última vez que este sistema de domínio de ferro dos EUA sobre os seus aliados foi quebrado, ocorreu em 11 de abril de 2003, quando o chanceler alemão, Schröder, o presidente francês, Chirac e o presidente russo, Putin se encontraram em São Petersburgo para denunciarem em conjunto a agressão ilegítima dos EUA e seus cúmplices ao Iraque (8). Pelo contrário, nos anos que se seguiram, os Estados da UE alinharam expressamente com a política de expansão da OTAN, em vagas sucessivas, apoiaram o derrube ilegal do governo legítimo do presidente ucraniano
Yanukovitch, no golpe da praça Maidan, em fevereiro de 2014, patrocinado pelos EUA, encarniçando-se na integração da Ucrânia na OTAN, sabendo que tal seria uma linha vermelha que significaria o desencadear de um conflito bélico. Hoje, nem o brutalismo de Trump mudou as coisas. Com a exceção do governo espanhol, os governos da UE estão aterrorizados com a possibilidade de serem abandonados pelos EUA.

Ofereceram-se para assumir o a parte de leão na continuação da guerra contra a Rússia no campo de batalha da Ucrânia, são cúmplices do genocídio que o Estado de Israel continua a cometer sobre as populações palestinianas, bem como com o terror exercido sobre países vizinhos, e são cínicos apoiantes da agressão brutal de Washington e Telavive contra Teerão. O rude exemplo desta atitude é visível na declaração do chanceler Friedrich Merz durante a sua visita à Casa Branca, em 2 de março de 2026: “O Irão não deveria ser protegido pelo direito internacional” (Iran should not be protected by international law)” (9).

Se juntarmos as peças do puzzle, nada de mais prematuro do que afirmar ser inevitável uma transição bem sucedida para uma nova ordem internacional multipolar. Neste momento, com duas guerras em áreas críticas do globo em curso, conflitos esses, centrados na Ucrânia e no Irão, com um elevado potencial de convergência intensificadora, a transição em tempo útil para uma nova balança de poder parece mais um desejo do que uma probabilidade forte. A aparente irracionalidade de Trump esconde uma estratégia de arriscada e agressiva defesa do império, que se gizou nos anos da Administração Obama – com o aumento exponencial da produção de combustíveis, sobretudo o gás de xisto – e se prolongou nas presidências posteriores, tanto de Trump como de Biden.

Na guerra da Ucrânia, os EUA conseguiram não só sangrar a Rússia como realizar o seu amadurecido projeto, publicado com todas as letras em 2019, de quebrar a ligação energética da UE com a Rússia, aumentando o fardo financeiro da Europa cada vez mais dependente do dispendioso LNG (gás natural liquefeito) importado dos EUA (10). Por outro lado, com o ataque ao Irão, para além de satisfazer a desmesura exterminadora de Netanyahu, os EUA pretendem privar a China da sua principal fonte de abastecimento em combustíveis fósseis e forçar os países
asiáticos, incluindo os seus aliados, a substituir os combustíveis fósseis do Golfo Pérsico pelos norte-americanos.

Explorações de gás e petróleo que há anos pareciam excessivas, ganham agora sentido. Primeiro cria-se a oferta, depois, usando as Forças Armadas dos EUA e/ou dos Estados vassalos, cria-se com a espada a procura (11).O preço infligido à população mundial com escassez e carestia, desde os povos dos EUA e da Europa, ao resto do mundo, são um custo negligenciável para uma lógica imperial disposta a ir até além dos limites para ficar de pé. A escassa elite que dirige o Ocidente (tanto nos EUA como nos países seus vassalos voluntários, na Europa e no Japão), a plutocracia financeira, digital e fóssil com o seu séquito de avençados políticos a baixo custo, nada mais têm a oferecer ao mundo do que a sua intempestiva perpetuação. Se ao risco de alastramento e escalada bélicos juntarmos a crescente probabilidade de implosão de um sistema financeiro alavancado numa dívida pública e privada impagável, e numa confiança cada vez menos vigorosa, temos todos os ingredientes que nos obrigam a não falar levianamente na inevitabilidade de um novo sistema internacional multipolar.

Qual o cenário alternativo, se, como referi acima, este sistema internacional atual não é reformável nem pode prolongar-se por muito mais tempo? Uma elite encurralada, possuída por uma arrogância niilista face ao mundo e um total desprezo pela condição humana, idólatra do poder do dinheiro e das armas, pode arriscar tudo para defender o seu privilégio. Forçar a implosão do planeta no seu potencial acumulado de overkill, poderia ser o último gesto da vontade de poder dessa elite sem autocontenção. Este sistema internacional, baseado em regras arbitrárias, impostas pelos EUA e seus servidores, pode ser o último.

Nesse caso, o futuro corre o risco de mergulhar no caos. Um caos que foi evitado em 1985, com o milagre Gorbachev, mas que, como todos os milagres, é uma improvável e irrepetível exceção à regra. Por isso, quem queira encontrar o caminho estreito e incerto para evitar o pior, terá de enfrentar, em vez de subestimar, a forte probabilidade da sua ocorrência.

30 de abril de 2026
Viriato Soromenho-Marques

1Professor Catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa e membro da Academia das
Ciências de Lisboa.

2 Oswald Spengler, Der Untergang des Abendlandes. Umrisse einer Morphologie der
Weltgeschichte, Munique, C.H.Beck, 1980.

3Emmanuel Todd, La Défaite de L’Occident, Gallimard, Paris, 2024.

4Viriato Soromenho-Marques, “O Fardo Perdido do Homem Branco”, Diário de Notícias, 12 de
outubro de 2024, p. 30.

5 A Resolução 997 (ES-I) de 2 de novembro de 1956 foi aprovada na Assembleia Geral da ONU
com 64 votos a favor e 5 contra (França, Reino Unido, Israel, Nova Zelândia e Austrália):
http://www.un.org/Depts/dpko/dpko/co_mission/unef1backgr2.html

6Freitas do Amaral, Diogo, “O 50.º Aniversário da NATO”, Visão, 29 de abril de 1999, p. 162.
Neste artigo luminoso e clarividente, Freitas do Amaral considera que ao atacar a Sérvia, a OTAN
mudava de natureza, tornando-se num instrumento ofensivo da hegemonia americana, com o
apoio entusiástico da maioria dos Estados da União Europeia.

7Durante a Conferência de Davos (20-21 de janeiro 2026), o primeiro-ministro do Canadá, Mark
Carney, ousou chamar ao rules-based world order, uma “mentira útil” que se desvanecera com
Trump. Contudo Carney estaria entre os primeiros aliados dos EUA a apoiar a guerra de agressão
de Washington e Telavive, desencadeada contra o Irão em 28 de fevereiro de 2026: Viriato
Soromenho-Marques, “A Revolta dos Escravos Infelizes”, Azorean Torpor, 27 de janeiro de 2026:
https://viriatosoromenho-marques.com/a-revolta-dos-escravos-infelizes/

9 As declarações de F. Merz e o seu contexto: https://www.telegraph.co.uk/world
news/2026/03/02/friedrich-merz-iran-not-be-protected-international-law/ Valha-nos a atitude de
Pedro Sánchez, para salvar a honra europeia: Viriato Soromenho-Marques “Entre Vegetarianos e Canibais”, Azorean Torpor, 6 de março de 2026: https://azoreantorpor.wordpress.com/2026/03/06/entre-vegetarianos-e-canibais/

8 Putin, Chirac, Schroeder Discuss Post-Saddam Iraq”, PBS News, Apr 11, 2003:
https://www.pbs.org/newshour/politics/middle_east-jan-june03-meeting_04-11

10 Os objetivos de saturar a Rússia com ameaças em múltiplas frentes, cortando os laços
energéticos da Alemanha e de outros países europeus com a Rússia, está claramente patente
neste longo relatório: James Dobbins et alia, Extending Russia. Competing from Advantageous
Ground, Santa Monica, CA, Rand Corporation, 2019.

11 Ver este interessante diálogo sobre a brutal coerência da estratégia dos EUA de coação tanto
de aliados como de rivais: Brian Berletic. U.S. Is Grooming Europe for War with Russia, 29 04
2026, Glenn Dieses Substack: https://youtu.be/Ef0sHx33C-g?si=SWcHJNkFwhmGO0y

Fonte: Soromenho-Marques, Viriato, “O Império Contra-Ataca: O Incerto Parto do
Mundo Multipolar”, Manifesto, nº 9, 2.ª série, Primavera-Verão, 2026, pp. 124-130.

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