No meio de sinais de uma derrota estratégica dos EUA, fala um investigador iraniano. As raízes históricas da resistência persa. A provável sabotagem de Israel. O papel da China e da Rússia. O que muda no Oriente Médio, após o fiasco de Trump
Mohammad Marandi, em entrevista a Chris Hedges | Tradução: Antonio Martins | Outras Palavras
O memorando de entendimento para paz entre os Estados Unidos e o Irão já foi assinado. A notícia foi avançada na noite desta quarta-feira pelo ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros e pelo governo dos EUA.
Washington e Teerão aproximaram se de um acordo preliminar para pôr fim à devastadora guerra contra o Irão, questões fundamentais permanecem sem resposta: o conflito realmente terminou ou a região está a entrar numa nova e mais perigosa fase de instabilidade?
Na entrevista que se segue, colocada on line pelo Outras Palavras há três dias, ainda antes da assinatura do memorando, o jornalista Chris Hedges conversa com o analista político iraniano Mohammad Marandi, nascido nos EUA, formado na Universidade de Birmingham e ex-conselheiro para as negociações nucleares de Teerã. Debatem o estado das negociações, a situação do Irão após meses de guerra, o futuro do Líbano e de Gaza, e as consequências geopolíticas mais amplas de um conflito que já remodelou o Médio Oriente e abalou a economia global.
Marandi argumenta que, apesar da imensa destruição e das dificuldades económicas, o Irão emergiu do conflito politicamente intacto e estrategicamente fortalecido, enquanto os Estados Unidos e Israel não conseguiram atingir seus principais objetivos. Também alerta que qualquer acordo permanece frágil, apontando para as contínuas operações militares de Israel no Líbano, a antiga desconfiança iraniana em relação aos compromissos dos EUA e o risco de que um novo conflito possa ameaçar novamente os mercados globais de energia e a estabilidade económica.
A entrevista oferece uma rara oportunidade de ouvir diretamente uma voz proeminente do Irão sobre como a guerra é entendida dentro do país, o que Teerão exige nas negociações e por que muitos na região acreditam que o conflito está longe de terminar.
Apesar das perdas iranianas e da crise económica desencadeada pela guerra — com prejuízos estimados em US$ 270 bilhões —, nenhum dos principais objetivos dos EUA e de Israel foi alcançado. O Estado iraniano não entrou em colapso. A nova liderança iraniana, centrada na Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), permanece desafiadora.
O Irão continua a controlar o Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do suprimento mundial de petróleo e gás natural. Segundo relatos, o país cobra até US$ 2 milhões — frequentemente pagos em moeda chinesa — para que petroleiros possam atravessar o estreito.
Se o Estreito de Ormuz não for reaberto em breve, a economia global poderá estar a caminho de uma grande crise. As reservas estratégicas de petróleo em países como o Japão e os Estados Unidos, que têm sido usadas para compensar a escassez de petróleo, estão se a esgotar rapidamente. Os preços da gasolina nos Estados Unidos estão agora 34% mais altos do que há um ano, enquanto os preços do diesel subiram mais de 50%. Esses aumentos são agravados pela escassez de produtos essenciais, incluindo fertilizantes nitrogenados, alumínio e hélio.
Trump e os seus aliados israelitas estão bem cientes de que, quer queiram quer não, o Irão detém atualmente uma influência significativa.
As principais exigências de Teerão incluem:
- Suspensão imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano.
- O compromisso dos EUA de não interferir nos assuntos internos do Irão e de respeitar a soberania iraniana.
- O levantamento do bloqueio naval dos EUA dentro de 30 dias.
- Retirada das forças americanas das áreas ao redor do Irão.
- Reabertura do Estreito de Ormuz sob acordo com o Irão.
- Suspensão das sanções ao petróleo iraniano, aos produtos petroquímicos e às indústrias relacionadas.
- A assistência para a reconstrução está estimada em 300 bilhões de dólares, provenientes dos Estados Unidos e seus aliados.
- Um período de negociação de 60 dias para abordar questões nucleares, o alívio de sanções e as resoluções relevantes do Conselho de Segurança da ONU e da AIEA.
- Um compromisso renovado do Irão, nos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, de não buscar o desenvolvimento de armas nucleares.
- A libertação de US$ 24 bilhões em ativos iranianos congelados antes do início das negociações, com a libertação de fundos adicionais à medida que as negociações avançarem.
Entrevista:
O presidente Trump anunciou alguma versão de um acordo de paz dezenas de vezes. Talvez não devêssemos chamar isso ainda de acordo de paz, mas sim de um acordo para iniciar negociações. Autoridades paquistanesas parecem otimistas, enquanto o ministério das Relações Exteriores iraniano afirma que um acordo final ainda pode levar vários dias. Da sua perspetiva em Teerão, qual é a situação atual?
Mohammad Marandi: Ainda não há um acordo final. Persistem diferenças significativas. Quando as autoridades iranianas diziam que uma assinatura no domingo era improvável, é porque tais diferenças não foram resolvidas. Mesmo que ambos os lados assinem um memorando de entendimento, isso não significa que a paz esteja garantida. Muitas coisas podem acontecer nos próximos dias e semanas.
Já está claro que o regime israelita está tentando impedir qualquer normalização da situação na região. O ataque ao Líbano intensificou se. Vilarejos e cidades no sul e centro do país estão a ser bombardeados diariamente. Homens, mulheres e crianças estão sendo mortos. O objetivo parece ser a destruição do sul do Líbano — para que se assemelhe a Gaza. Em muitos lugares, isso já ocorre.
Mesmo que um acordo seja assinado, as ações de Israel e a pressão do lobby israelita podem comprometer o progresso. E se ultrapassarmos um acordo inicial, entramos numa segunda fase que se torna ainda mais complicada.
Existem sanções que devem ser suspensas, muitas das quais estão inscritas na legislação dos EUA. O programa nuclear iraniano também é inegociável em certos aspetos. O Irão não abandonará o enriquecimento de urânio porque o considera um direito soberano.
Portanto, há um campo minado pela frente. O Estreito de Ormuz permanece efetivamente fechado e a economia global caminha para uma crise. Mesmo que um acordo seja assinado, qualquer perturbação poderá resultar no fechamento do estreito novamente.
Nada é certo.
Gostaria de perguntar sobre o Líbano. Desde o momento em que o cessar-fogo foi anunciado, tudo indicava que tanto os Estados Unidos quanto Israel o violariam imediatamente. Vimos ataques violentos quase que imediatamente depois. Também vimos o que aconteceu em Gaza, onde quase mil palestinos teriam sido mortos desde que o chamado cessar-fogo foi implementado.
Estaremos a caminho de uma situação em que os acordos existem no papel, mas na prática há violações e ataques periódicos e uma recusa de Israel em cumprir uma das principais exigências do Irão — ou seja, o fim das hostilidades no Líbano? O entendimento parece ser que o Irão se absterá de atacar aliados dos EUA, mas Israel e os Estados Unidos, da mesma forma, se absteriam de atacar aliados iranianos, como o Hezbollah.
Mohammad Marandi: A questão também inclui Gaza, embora Gaza não seja especificamente mencionada no acordo proposto. O Líbano é mencionado diretamente devido aos constantes ataques aéreos contra aldeias, vilas e cidades.
O que você está descrevendo é certamente uma possibilidade, e é precisamente o que as autoridades iranianas dizem que poderia levar ao fracasso do acordo.
A principal vantagem do Irão é o Estreito de Ormuz. O Irão tem a capacidade de restringir o acesso ao estreito para países alinhados aos Estados Unidos. É importante entender que o Irão nunca fechou completamente o Estreito de Ormuz. Países que permaneceram amistosos a Teerão durante a guerra — ou que não participaram da campanha — continuaram a navegar pela passagem.
Houve breves períodos em que os norte-americanos efetivamente impuseram um fechamento completo, mas, de modo geral, embarcações associadas a países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein e Catar enfrentaram restrições porque esses governos participaram do esforço de guerra dos EUA. Segundo o acordo proposto, esses países voltariam a ter permissão para usar o estreito. No entanto, se Israel violar o acordo, da perspetiva do Irão os Estados Unidos também o terão violado.
Vimos isso após a guerra de 39 dias. Havia um acordo para pôr fim às hostilidades no Líbano, e esperava-se que o Estreito de Ormuz fosse reaberto para a navegação com destino a esses países. Mas quando Netanyahu retomou os bombardeios ao Líbano, o Irão respondeu impedindo a saída desses navios. Trump, então, impôs um bloqueio aos portos iranianos.
Consequentemente, o estreito permanece em grande parte fechado para países aliados dos Estados Unidos. O importante é que isto não será outro acordo como o JCPOA, de 2015. Naquela ocasião, o Irã cumpriu seus compromissos no âmbito do acordo nuclear. Os norte-americanos, em muitos casos, não o fizeram. O presidente Obama deveria ter cumprido uma série de obrigações, mas falhou em implementar muitas delas. Essa experiência deixou uma profunda cicatriz no Irão e é um dos motivos pelos quais o JCPOA é visto com desaprovação por muitos iranianos atualmente.
Desta vez, o Irão insiste em uma sequência diferente. Os Estados Unidos devem primeiro libertar os ativos iranianos e ajudar a pôr fim ao massacre no Líbano. Só então o processo poderá avançar.
A sequência é fundamentalmente diferente da do JCPOA, em que o Irão agiu primeiro e depois esperou para ver se os americanos cumpririam suas obrigações. Em algumas áreas, Washington terá de agir primeiro. Em outras, a implementação ocorrerá simultaneamente.
Os Estados Unidos têm um longo histórico de incumprimento de acordos com o Irão. Isso remonta aos Acordos de Argel e a inúmeros outros entendimentos nos quais Washington prometeu não interferir nos assuntos iranianos.
Mohammad Marandi: Exatamente. E isso vai além do acordo nuclear. Ao longo dos anos, houve entendimentos envolvendo o Afeganistão, o Iraque, o Líbano e outras questões. Em todos os casos, do ponto de vista iraniano, foram os americanos que violaram o acordo. Essa história explica o ceticismo em Teerã.
Não conheço ninguém que acredite que um acordo será assinado, que Washington cumprirá voluntariamente todos os seus compromissos e que os dois lados passarão então sem problemas para uma segunda fase que conduza a um acordo abrangente. Pessoalmente, acho isso altamente improvável.
Mesmo agora, não tenho certeza de que um acordo será assinado. As chances são relativamente altas porque Trump está sob enorme pressão, mas ainda há divergências substanciais sobre questões que o Irão considera intransponíveis. Os norte-americanos não querem que Israel fique de mãos atadas no Líbano. Os iranianos afirmam que deve haver um cessar-fogo genuíno. Israel não pode simplesmente manter a capacidade de atacar o Líbano quando bem entender.
Israel claramente tem um interesse direto em sabotar qualquer acordo. Isso parece expor uma crescente divisão entre Washington e Tel Aviv. Trump está sob pressão porque parece estar à beira de uma crise económica global. As reservas estratégicas de petróleo estão se a esgotar. O tempo não está a seu favor.
Mohammad Marandi: Perfeito. A influência do Irão provém tanto do campo de batalha quanto da economia. Os iranianos acreditam que tiveram um desempenho muito bom durante os 39 dias de combate. Eles não acreditam apenas que sobreviveram. Acreditam que venceram. Atingiram com sucesso alvos israelitas, instalações americanas e ativos aliados em resposta aos ataques contra a infraestrutura iraniana e locais civis.
Como resultado, a confiança dentro do Irão é muito alta. Quando a guerra começou, havia preocupação. Algumas pessoas acreditavam que o Irão sairia vitorioso, enquanto outras temiam o pior. Mas o notável era a calma. Mesmo depois de ficar claro que importantes líderes haviam sido assassinados, as pessoas não entraram em pânico. Não houve corrida aos supermercados, nem açambarcamento generalizada. Os postos de gasolina permaneceram relativamente tranquilos.
Gradualmente, a confiança pública aumentou. Após duas semanas, muitas pessoas acreditavam que o Irão estava a vencer a guerra. Quando o Irão finalmente aceitou o cessar-fogo — depois que Trump mudou de posição, passando de exigir a rendição incondicional para aceitar a proposta iraniana de dez pontos para negociações — muitos iranianos argumentaram que a guerra deveria continuar.
Ainda hoje, há muitas pessoas que acreditam que, se os norte-americanos recusarem as exigências, o Irão deverá retomar os combates. Não sei se são a maioria. Mas o que é certo é que a confiança hoje é muito maior do que era antes. Essa confiança leva muitos iranianos a acreditarem que sua posição é mais forte do que a de Washington. E se os americanos ou os israelitas violarem um acordo, não creio que o Irão simplesmente o aceitará. Vimos isso no Líbano. Quando Israel intensificou os seus ataques a Beirute e ameaçou vastas populações civis, o Irão respondeu diretamente. Do ponto de vista iraniano, isso demonstrou tanto capacidade quanto determinação.
Para onde você acha que a situação económica caminha? Trump está flertando com o que poderia se tornar uma depressão global, se o Estreito de Ormuz permanecer fechado. Ao mesmo tempo, o Irão sofreu danos significativos devido à guerra. A inflação está alta, especialmente para produtos de primeira necessidade. É evidente que o Irão pagou um preço alto por esse conflito.
Mohammad Marandi: Sem dúvida. Os 39 dias de guerra causaram danos significativos. Os ataques tiveram como alvo fábricas farmacêuticas, instalações de produção de aço, plantas petroquímicas e o principal campo de gás do Irã. Escolas, hospitais e prédios residenciais foram atingidos. A destruição foi substancial. Se você vier a Teerão hoje, não verá necessariamente devastação em todos os lugares, pois é uma cidade muito grande. Mas, se souber onde procurar, os danos são evidentes.
O bloqueio imposto aos portos iranianos criou problemas adicionais. Os Estados Unidos restringiram a capacidade do Irão de exportar e importar mercadorias. As exportações de petróleo caíram significativamente e a capacidade de importar alimentos, medicamentos e suprimentos médicos por meio de seus portos no sul do país foi severamente afetada. O Irão tenta substituir essas rotas comerciais pela Ásia Central, Mar Cáspio, Cáucaso, Paquistão e, em menor escala, Afeganistão. Mas essas alternativas não são suficientes.
Não há como negar que a situação é difícil. Apesar dessas pressões, os iranianos demonstraram uma resiliência extraordinária. Muitas pessoas encaram isso como uma guerra pela sobrevivência nacional. Elas acreditam que venceram a guerra, e essa crença fortaleceu a confiança pública. Os iranianos também são resilientes por natureza. De forma mais ampla, as comunidades xiitas em toda a região têm uma tradição de resistência profundamente enraizada.
A história do Imam Hussein e da Batalha de Karbala — a disposição de se opor à opressão independentemente das adversidades — está profundamente enraizada na visão de mundo em toda a região. Essa tradição ajuda a explicar a resiliência que vemos no Irão, no Líbano e em grupos como o Hezbollah. É uma das razões pelas quais muitos se referem ao que existe como o “Eixo da Resistência”.
Na minha opinião, o Irão sobreviverá aos Estados Unidos nesse confronto económico. O cerco imposto por Washington é uma faca de dois gumes. Os Estados Unidos tentam destruir a economia iraniana. Ao mesmo tempo, causam sérios danos à economia global e empurram a sua própria economia para a crise. A diferença é tanto psicológica quanto económica. Os iranianos veem-se como vítimas de agressão. Acreditam que estão defendendo seu país e, portanto, devem suportar dificuldades.
Em contrapartida, a maioria dos norte-americanos não se vê numa guerra de sobrevivência. Encaram o conflito como uma guerra de escolha. E muitas pessoas ao redor do mundo veem cada vez mais essa guerra como uma luta travada em nome de Netanyahu e do governo israelita, em vez de uma guerra motivada por seus próprios interesses nacionais.
Quem quiser entender a resiliência iraniana deve estudar a guerra de oito anos contra o Iraque. Pelo que sei, você mesmo lutou nessa guerra.
Eu ofereci me como voluntário quando tinha dezasseis anos. Durante a guerra, fui exposto a armas químicas duas vezes. Sobrevivi a ataques com gás mostarda e com agentes nervosos. Um amigo em comum nosso, Alastair Crooke, escreveu um livro há muitos anos chamado “Resistência e a Essência da Revolução Islâmica”. É um livro antigo, mas ainda acho que oferece informações úteis. Não existe muito material de alta qualidade disponível em inglês sobre o Irão, mas esse é um livro que costumo recomendar. Outro é ”Going to Tehran”. Para quem busca compreender o conceito de resistência e como ele molda o pensamento iraniano, essas obras oferecem um contexto valioso.
Recentemente, ouvimos Trump ameaçar tomar a Ilha de Kharg. Com o presidente, muitas vezes é difícil saber se essas declarações representam uma política real ou simplesmente improvisações de madrugada. Mas, se as negociações fracassarem, o que significaria uma medida dessas?
Mohammad Marandi: Seria difícil, mas não impossível. Os Estados Unidos deslocaram um número substancial de tropas e grandes quantidades de equipamentos para o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e outros locais ao redor do Golfo Pérsico. Manter esses destacamentos é um desafio. É verão no Golfo, e as condições são extremamente quentes e húmidas.
Caso ocorresse um ataque, entendo que o Irão provavelmente permitiria que as forças americanas tomassem algum território inicialmente e, em seguida, começaria a atacá-las com drones, foguetes e mísseis. Na verdade, durante a guerra, oficiais militares iranianos disseram-me que quase desejavam que os Estados Unidos lançassem uma invasão terrestre. A visão deles era de que os pontos fortes do Irão se tornariam muito mais significativos quando as forças americanas estivessem fisicamente presentes em território iraniano ou ocupando ilhas e posições fixas. Nesse ponto, essas forças se tornam vulneráveis.
A estratégia militar do Irão sempre se concentrou em tornar o custo de uma invasão insuportável. O objetivo não é necessariamente derrotar os Estados Unidos no sentido convencional. O objetivo é infligir sofrimento suficiente para que os futuros líderes americanos decidam que tal guerra jamais valerá a pena ser tentada novamente.
As pessoas frequentemente subestimam a dimensão dos preparativos do Irão. Durante décadas, o país construiu extensas instalações subterrâneas. Cidades subterrâneas abrigam sistemas de mísseis, infraestrutura para drones, fábricas, redes de defesa aérea e até mesmo componentes da força aérea iraniana. Essas instalações não foram construídas da noite para o dia.
Esses preparativos deram certo. O Irão também passou décadas preparando-se para a possibilidade de uma guerra terrestre. Os resultados surpreenderam muitos observadores. Com base em conversas que tive com pessoas na China, na Rússia e em outros lugares, há um espanto genuíno com a eficácia com que o Irã lidou com o conflito. Se os Estados Unidos lançassem uma grande invasão terrestre, acredito que muitas pessoas ficariam igualmente surpresas com o resultado. Pessoalmente, não acredito que Trump queira uma guerra desse tipo. Mas, dada a influência do lobby israelita e a imprevisibilidade dos acontecimentos políticos, jamais diria que algo é impossível.
De que forma a guerra alterou o equilíbrio de poder regional?
A posição do Irão foi significativamente fortalecida. Isso é especialmente verdade em relação à Rússia e à China. Autoridades de ambos os países expressaram admiração pela forma como o Irão lidou com a guerra. Talvez não usem a palavra “surpresos”, mas creio que a surpresa faça parte do que sentiram. Muitas pessoas previam o colapso do Irão. Achavam que o país cederia durante a fase inicial de doze dias do conflito. Depois, após a intervenção americana, acreditaram que o Irão entraria em colapso em poucos dias. Em vez disso, o Irão manteve-se firme. Houve destruição, perda de vidas e sofrimento. Mas nunca houve a sensação de que o país estivesse a desintegrar-se.
Sempre acreditei que o Irão sobreviveria, mas até eu fiquei surpreso com a resiliência demonstrada pelas pessoas comuns.
Uma das coisas notáveis durante a guerra foi a resposta do público. Quando havia ameaças de bombardeio a pontes e infraestrutura crítica, víamos iranianos comuns se reunindo em torno desses locais, quase espontaneamente, para protegê-los.
Mohammad Marandi: Sim. Os meus próprios alunos me contatavam constantemente naqueles primeiros dias. Eles perguntavam: “O que podemos fazer? Para onde devemos ir? Como podemos ajudar?” Muitas vezes eu não sabia o que dizer a eles. Passava tanto tempo dando entrevistas para a mídia que, ironicamente, às vezes eu sabia menos sobre o que estava acontecendo no terreno do que as pessoas comuns. Mas tinha alunos — de dezoito e dezanove anos — que me ligavam constantemente.
O que mais me impressionou foi que alguns daqueles alunos haviam participado de protestos e tumultos apenas alguns meses antes. Vários entraram em contato comigo em particular e disseram: “Cometemos um erro. Como podemos compensá-lo?” Algumas dessas conversas foram emocionantes. Eu sugeriria fazer trabalho voluntário com a Cruz Vermelha, ajudar em mesquitas locais ou encontrar maneiras de auxiliar as suas comunidades. As pessoas queriam contribuir. Ao longo dos 39 dias de guerra, houve um espírito extraordinário entre os iranianos comuns. Mas, para mim, aquelas primeiras semanas foram diferentes de tudo que eu já havia experimentado.
Vamos supor que o memorando de entendimento seja eventualmente assinado. Você mencionou anteriormente que ainda existem grandes obstáculos, especialmente a determinação de Israel em sabotar qualquer acordo. O que você acha que acontece a seguir? Estaremos a caminhar para um futuro de ataques periódicos, escaladas intermitentes e um conflito interminável de baixa intensidade, semelhante ao que vimos em Gaza e no Líbano?
Mohammad Marandi: Graças a Deus, não sou um apostador. Mas acredito que os iranianos não permitirão que o que consideram um genocídio continue indefinidamente. No Líbano, acredito que o Irão será extremamente firme tanto na mesa de negociações quanto na aplicação de qualquer acordo que venha a ser firmado.
Gaza apresenta um desafio diferente. Na minha opinião, muitos governos da região abandonaram os palestinos. Turquia, Egito, Arábia Saudita, Jordânia e outros aceitaram o que o Irão considera um acordo de cessar-fogo fundamentalmente injusto. Na prática, eles o endossaram. Desde então, Israel continuou suas operações militares além dos limites acordados, e um grande número de palestinianos foi morto.
O problema para o Irão é que Washington pode simplesmente responder dizendo que já existe um acordo em vigor. Isso limita a influência do Irão em relação a Gaza. O Líbano é diferente. Nesse contexto, o Irão possui influência direta por meio do Estreito de Ormuz e de sua capacidade de impor sanções caso os acordos sejam violados. Por isso, não acredito que o Irão permitirá que os Estados Unidos se comportem da mesma maneira que se comportaram após a assinatura do JCPOA em 2015.
Que efeito teve esta guerra no projeto mais amplo do que muitos chamam de Grande Israel? Um dos desenvolvimentos preocupantes foi a recente discussão entre Tucker Carlson e o embaixador dos EUA em Israel, na qual o embaixador sugeriu que, se Israel dominasse a região, isso seria aceitável. Muitas pessoas veem isso como um reflexo de um elemento não oficial, mas real, da política americana.
Mohammad Marandi: O extraordinário é que o Irão e o Iêmen estão entre os países menos diretamente ameaçados por um projeto do Grande Israel. Países como Síria, Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque, Arábia Saudita e Egito enfrentariam consequências muito mais imediatas. No Líbano, por exemplo, acredito que o governo atual foi instalado com forte apoio americano e tem trabalhado ativamente contra a resistência. As autoridades restringiram a ajuda humanitária, limitaram a circulação e tornaram a vida mais difícil para as comunidades deslocadas. A ajuda iraniana tem sido frequentemente bloqueada. A ajuda do Iraque tem sido obstruída. As fronteiras foram fechadas.
Apesar dessas pressões, o Hezbollah continuou a funcionar. Se o Grande Israel algum dia se tornar realidade, serão os estados árabes vizinhos que enfrentarão as maiores consequências. Mas não acho que esse projeto vá dar certo. Acredito que Netanyahu fracassou e esta guerra contra o Irão representa um ponto de viragem importante.
O conflito entre os Estados Unidos e o Irão será lembrado como um dos eventos definidores desta era. Muitas pessoas presumiam que o Irão entraria em colapso. Em vez disso, ele sobreviveu. Mais do que isso, o Irão forçou negociações sob condições que muitos consideravam impossíveis alguns meses antes. Quando estrategistas norte-americanos proeminentes e defensores de longa data da intervenção descrevem isso como uma das maiores derrotas da política externa moderna dos EUA, isso demonstra a dimensão do que aconteceu.
Não acredito que Netanyahu consiga atingir os seus objetivos de longo prazo depois disso, nem que o Estado de Israel possa continuar indefinidamente no seu caminho atual. Desde 7 de outubro, as ações de Israel transformaram a opinião global. A guerra contra o Irão, combinada com a destruição em Gaza e no Líbano, intensificou a oposição internacional. Ao mesmo tempo, o conflito afetou a economia global e gerou consequências que vão muito além do Médio Oriente. Militarmente, Israel pode infligir enorme sofrimento. Pode matar um grande número de palestinianos e civis libaneses. Mas, em última análise, não acredito que a força militar por si só garantirá o seu futuro. Acho que isso vai acabar mal para o regime israelita.
Publicado em 15/06/2026 no jornal online Outras Palavras

