No Sindicato Nacional da Educação (National Education Union, NEU), decorreu em Londres, ontem, a Conferência Internacional contra a Guerra com cerca de 200 delegados provenientes de 20 países da Europa, incluindo Portugal, bem como da Palestina e dos Estados Unidos.
Hoje, sábado, terá lugar um comício no Central Hall de Londres que reunirá milhares de militantes, sindicalistas e parlamentares de vários países.
Numa altura em que o conflito no Médio Oriente, a guerra e o rearmamento na Europa, bem como a retoma da austeridade mundial, são notícia diária, a necessidade, para o movimento internacional contra a guerra e o movimento sindical, de renovarem a cooperação internacional não poderia ser mais evidente.
A Conferência de Londres conta com o apoio de sindicatos nacionais na Grã-Bretanha, nomeadamente os que representam os trabalhadores ferroviários, professores, funcionários públicos, padeiros e maquinistas, e dezenas de sindicatos regionais.
Sílvia Timóteo, dirigente do SPGL, interveio em nome da delegação portuguesa:
O meu nome é Sílvia Timóteo. Sou dirigente sindical do maior sindicato português de professores, filiado na FENPROF, uma federação sindical com um papel histórico na defesa dos direitos dos professores. Esta federação participou nas duas greves gerais mais recentes em Portugal (em dezembro e junho) e participou, juntamente com a CGTP-IN, a maior confederação sindical portuguesa, em todos os protestos contra o genocídio do povo palestiniano.
Sou membro da delegação portuguesa que tem estado presente em todas as reuniões realizadas por este comité contra a guerra. Começámos com dois representantes e hoje, aqui em Londres, somos doze. Somos ativistas e dirigentes sindicais de vários setores: educação, saúde, administração pública e estudantes universitários, entre outros.
Como referi, Portugal assistiu a duas grandes greves gerais num período de apenas seis meses. Não havia uma greve geral em Portugal há 12 anos. Então, o que está em causa? Uma enorme rejeição por parte dos trabalhadores — e é importante dizê-lo, também por parte dos jovens, que constituem um dos grupos mais precarizados do país — a um ataque promovido pelo Governo de direita, que apresentou um pacote laboral anti trabalhadores, representando um verdadeiro retrocesso social.
Este pacote inclui mais de 100 medidas, nenhuma delas favorável aos trabalhadores. Todas têm como objetivo destruir direitos sociais, laborais e sindicais conquistados. Pretendem agravar as condições de trabalho e os horários, legitimar despedimentos injustos, enfraquecer a contratação coletiva, alterar o direito à greve e limitar a atividade sindical. Conscientes da gravidade do que estava em causa, milhões de trabalhadores responderam massivamente ao apelo, participando nas greves gerais.

Os meios de comunicação social deram pouca cobertura a estas greves, e o Governo afirmou que a participação tinha sido “mínima”. Contudo, em ambas as greves, cerca de três milhões de trabalhadores, de uma população ativa de cinco milhões, paralisaram o país, desmentindo as notícias falsas difundidas pelo Governo e pela extrema-direita. A mobilização unida da classe trabalhadora deixou a classe dominante, os patrões e o Governo em estado de alarme. Isto é revelador! A melhor forma de combater e derrotar a extrema-direita não é apenas através da força dos argumentos, mas através do argumento da força social daqueles que produzem tudo.
A par deste pacote laboral anti trabalhadores, está em curso a destruição de vários apoios sociais destinados aos mais vulneráveis, enquanto o Governo continua os seus esforços para desmantelar e privatizar outros setores públicos, incluindo a Segurança Social, a saúde e a educação.
Esta guerra social não pode ser separada das guerras militares travadas contra povos inteiros para a pilhagem dos seus recursos minerais e energéticos, nem do genocídio do povo palestiniano, e agora também do povo libanês, nem dos bombardeamentos no Irão.
Os cortes orçamentais em setores essenciais — o chamado “poupar recursos públicos” — retiram dinheiro que deveria servir para pagar pensões, bolsas de estudo, médicos, professores e tantos outros. Os frutos do nosso trabalho estão a ser desviados para orçamentos de guerra.
Os governos europeus querem arrastar-nos, a nós e aos nossos filhos, para a guerra. Querem convencer-nos de que a guerra é inevitável, de que o inimigo está às nossas portas e de que devemos preparar-nos e aceitar todos os cortes e sacrifícios em nome do esforço de guerra.
Em Portugal, o Governo, submisso à NATO, prepara-se para atingir a meta de 5% do PIB em despesas militares. Autorizou a utilização da base aérea das Lajes por aeronaves norte-americanas que bombardearam o Irão, mesmo antes de existir um pedido oficial dos Estados Unidos, e tenta atrair jovens para o serviço militar oferecendo 439 euros por mês e uma carta de condução.
Os sindicatos devem assumir uma posição clara contra a guerra, contra os preparativos de guerra e contra a produção e envio de armas utilizadas em guerras e genocídios, tal como fizeram os trabalhadores portuários de Génova, em Itália, respondendo ao apelo do seu sindicato. Estes trabalhadores defenderam a dignidade da classe trabalhadora internacional e escreveram uma página de ouro na história do movimento operário e sindical. Uma salva de palmas para eles e para quem os representa aqui hoje!
É importante que o mesmo aconteça em Portugal e noutros países de todo o mundo. Sindicatos, confederações, organizações sindicais e partidos de esquerda devem atuar de forma coordenada a nível internacional. A guerra acabaria. Não haveria quem produzisse as armas, nem quem as transportasse. Por isso é tão importante construir uma rede internacional que una todos aqueles que lutam contra a guerra.
Sou filha da Revolução de Abril de 1974. Aquilo que sou hoje devo-o à Revolução dos Cravos, à luta do povo português e às suas conquistas. Foi a revolução, a mobilização dos jovens soldados, dos estudantes e das mães dos militares que impediram que os seus filhos partissem, combatessem, matassem e fossem mortos na guerra. Foi a Revolução dos Cravos que pôs fim à Guerra Colonial. Foi também através dessa luta, através da revolução, que conquistámos os nossos direitos sociais, laborais e sindicais, e o sonho — o sonho de um futuro melhor para todos. Um futuro construído com Paz, não com Guerra.
Sou dirigente sindical; antes disso sou professora, mulher e mãe. Uma mãe preocupada que, neste clima cada vez mais militarizado, se interroga sobre o futuro dos seus filhos e dos filhos dos outros.
E, como eu, milhões de mães e pais em todo o mundo partilham as mesmas preocupações. Os jovens são sempre as primeiras vítimas da guerra. Mas não são os filhos dos industriais, dos banqueiros, dos políticos ou dos generais que vão para a guerra. Não. São os filhos dos agricultores, dos pequenos empresários e dos milhões de mães e pais da classe trabalhadora.
São os nossos filhos!
A História tem demonstrado repetidamente que “não há nada de heroico ou admirável na guerra”. Vietname, Afeganistão, Balcãs, Iraque, Líbia, Síria e, mais recentemente, Ucrânia, Líbano, Irão e Palestina. A guerra deixa um rasto de destruição e sangue entre os povos, enquanto coloca enormes riquezas nas mãos de poucos.
Cabe a todos nós envolvermo-nos em movimentos, associações e sindicatos, e mobilizarmo-nos contra a guerra que aqueles que lucram com a morte procuram impor-nos — aqueles que querem sacrificar os nossos filhos à máquina de guerra.
Enquanto sindicalista, professora e mãe, não quero que os nossos filhos vão para a guerra.
Obrigada.


