por Pedro Soares
O debate sobre os caminhos futuros da esquerda está finalmente em cima da mesa. Independentemente da opção que cada um defenda, já não é possível escondê-lo atrás do biombo de quem se acomoda ao estado atual das coisas e resiste a qualquer mudança, nem de quem, embora crítico do status quo, hesita no desafio de construir uma alternativa. O futuro da esquerda exige um debate aberto, exigente, sem interditos. É precisamente esse debate que hoje se impõe.
A principal avaliação de uma força política faz-se pelo seu programa, pela sua prática e pela coerência entre ambos. No ponto de vista da conceção de partido, não se mede apenas pela forma como escolhe os seus dirigentes ou decide as suas posições. Mede-se, sobretudo, pela forma como trata quem pensa de maneira diferente no seu interior. A democracia assenta, inevitavelmente, na regra da maioria, mas vive da existência de minorias com direitos, voz e capacidade de influenciar o debate coletivo. Uma maioria que decide é legítima; uma maioria que silencia, exclui, ostraciza ou persegue deixa de fortalecer a democracia, começa a empobrecê-la e a perder legitimidade real.
Há uma diferença profunda entre um partido plural e um partido de maioria monolítica. Num partido plural, as decisões são tomadas pela maioria, mas as posições minoritárias são respeitadas, valorizadas e integradas como parte da riqueza coletiva. O desacordo não é visto como uma ameaça, mas como uma condição da inteligência democrática. A diversidade de opiniões melhora as decisões, evita o pensamento único e reforça a capacidade de responder à complexidade da sociedade.
Pelo contrário, um partido dominado por uma maioria fechada sobre si própria tende a confundir unidade com unanimidade e lealdade com obediência. Quando a divergência é tratada como um desvio, quando as minorias são afastadas dos espaços de decisão ou impedidas de participar em condições de igualdade na vida do partido, instala-se uma cultura de conformismo que empobrece a organização, desmoraliza a militância, desencoraja a participação e acaba por afastar as pessoas da intervenção política.
Uma democracia sem oposição é uma democracia amputada. Da mesma forma, um partido sem pluralismo interno deixa de ser uma escola de democracia para se transformar numa estrutura de reprodução de poder e de preservação de posições adquiridas. A legitimidade da maioria não lhe confere o direito de eliminar a diversidade; atribui-lhe, pelo contrário, a responsabilidade acrescida de garantir que todas as sensibilidades possam participar, expressar-se e contribuir para o projeto comum.
No ponto de vista ecossocialista, esta exigência não é apenas uma questão de organização; é uma questão de identidade política. O ecossocialismo parte da convicção de que as transformações profundas da sociedade não podem ser impostas de cima para baixo, mas construídas coletivamente, a partir da participação consciente das pessoas, das comunidades e dos territórios. Uma perspectiva ecossocialista deve, por isso, cultivar uma democracia de base, descentralizada, cooperativa e plural, onde a diversidade de experiências e sensibilidades seja entendida como um fator de inovação política e não como um obstáculo à ação comum.
O hipercentralismo, a concentração excessiva de poder e a uniformização do pensamento produzem precisamente o efeito contrário. Reduzem a inteligência coletiva, desencorajam a participação, afastam militantes e simpatizantes e enfraquecem a capacidade transformadora da organização. A diferença não é um problema a eliminar, mas uma condição da vitalidade democrática. Uma organização que sabe integrar o conflito, promover o debate, valorizar a diversidade, distribuir poder e atribuir efetivo poder de decisão às suas estruturas de base forma novos quadros, renova-se permanentemente e torna-se mais forte, mais criativa e mais preparada para enfrentar os difíceis desafios do presente.
Também por isso, a coerência é um valor político essencial. Quem defende uma sociedade mais democrática, mais participativa e mais plural tem de praticar esses princípios no seu próprio funcionamento. Não é coerente denunciar a hegemonia neoliberal, reclamar uma democracia plural para o país em todas as suas dimensões e aceitar, dentro da própria organização, uma lógica segundo a qual “a maioria manda”, sem reconhecer nem criar condições efetivas — e não apenas formais — para o exercício dos direitos políticos de quem tem diferenças de opinião. A democracia não se esgota na contagem dos votos; exige também respeito pela diferença, garantia de participação e abertura ao contraditório.
O pluralismo não é apenas uma exigência ética; é também uma condição de eficácia política. Os sistemas vivos — ecossistemas, comunidades humanas ou organizações — tornam-se mais resilientes precisamente porque são diversos. Da mesma forma, um partido plural adapta-se melhor às mudanças sociais, aprende mais depressa e melhor, corrige erros com maior facilidade e representa melhor a complexidade do país. Uma organização forte não é aquela onde todos pensam o mesmo; é aquela onde pessoas que pensam de forma diferente conseguem construir uma orientação comum. A unidade é uma conquista democrática; a uniformidade é, quase sempre, uma imposição.
Uma opinião pública exigente observa não apenas o discurso dos partidos, mas também a forma como estes exercem o poder internamente. A credibilidade de um projeto político constrói-se tanto pelas propostas que apresenta como pelo exemplo democrático que oferece. Não há transformação ecossocialista sem democracia vivida, nem democracia vivida sem pluralismo, respeito pela diferença, descentralização e distribuição efetiva do poder. A democracia começa dentro de casa. É aí que se testa a autenticidade dos princípios que se pretendem levar para a sociedade.

